No Deserto, pela mão do Pai
(Mercedes Navarro, LMC)
Foi na nossa primeira visita ao Uganda. O Raúl e eu pensávamos: como já estamos dentro dos LMC (Leigos Missionários Combonianos), com esta oportunidade de estar lá na África, nós vamos ficar lá uns meses com o Padre Longinos.
Bom, foi esta a experiência que eu tive: as noites eram de tiroteio… e... as pessoas de facto morrem de fome! E eu... não sei... É que eu vivi na pele uma realidade que não tinha vivido em Madrid, mesmo se já tinha visto aquilo muitas vezes na televisão.
Para mim foi como lembrar São Paulo, que caiu, ficou na escuridão, ficou cego três dias. Também eu fiquei meia perdida. Voltei a Madrid e dizia: a mim a África já não me vê mais! E, para além disso, também vos digo, que aquele foi o ano em que o padre Juan Nuñes partiu para a Etiópia e deixou de acompanhar os LMC. Eu queria que me acompanhasse o padre Pepe Barranco, que agora anda por aqui e eu gostava de o ver. Eu precisava de contar a alguém o que eu tinha vivido no Uganda, porque não sabia como entendê-lo ou interpretá-lo.
Bom, em vez de um ano, isso tudo me levou alguns anos até que eu senti que o Pai me transformava por dentro. Ele me dizia: isso que tu vives é a realidade, não o que tu vives em Madrid, tão cómoda na tua casa. É que as pessoas de facto morrem de fome. Isso é real… É real quando tu o tocas e o sentes e o cheiras. Porque cheirá-lo também é importante!! E então esses três anos me levaram a essa transformação mental. E a dizer: Sim. Vamos para a África. Mas eu disse: Que não haja tiros. Então mandaram-me para Moçambique. Lá encontrei a irmã Mari Carmen. Para mim esses anos foram vividos de outra maneira. Mudei a minha vida. Mas depois foi ainda mais difícil voltar a Madrid. Voltar à M30 e à M 40… Parece que isto aqui eu já não entendo! E isso é só para falar da minha dificuldade quando regressei. Quando eu voltei já não era a mesma pessoa. E era somente a primeira missão.
Agora a segunda. Vamos a ver se eu consigo… Com os meus irmãos LMC, com quem eu rezo às segundas feiras, eu vivi aquilo que estou vivendo como um deserto. Sinto-me no deserto. Agora, olhando para a montanha, também Jesus subiu a montanha. Eu não digo que não… Custa-me muito subir a montanha mas claro, estávamos a viver o momento muito calmo e muito bom na família. E com os LMC também. Uma felicidade… Não sei. É como levar tudo… Agora eu tenho muito tempo para pensar. Os formandos estão agora aqui, porque eu sou monitora de formação comboniana, o que me enche o coração. E eu, que tenho o melhor trabalho, do qual gosto tanto, ser professora de física e química. Eu estava a viver um momento na vida em que eu pensava: Uau, tudo vai tão bem. E acontece que chega outra grande queda: como São Paulo, pumba. E esta vez… Pois apesar de eu já ter tido um cancro, eu não o tinha visto assim tão dramático, porque não foi: depois de dois meses eu já estava de novo a trabalhar. Mas desta vez, este tumor aqui no cérebro… este sim me abalou. Como é que eu posso dizer… é que o cérebro é muito importante, E sobretudo porque os médicos não me diziam o que ia acontecer. É preciso operar, e depois não se sabe... Só agora é que eu disse ao Raúl onde quero que me enterrem. Eu pensava: vamos lá ver, um sitio bonito. E assim, já decidimos. Eu conto isto porque foi para mim muito traumático, e para o Raúl também.
Foi um tempo… Porque é que eu falava de deserto? Por que deixei a minha vida para encontrar outra coisa, para parar. E neste parar, encontrar-me com o Pai, com o qual sempre eu vou pela mão. Eu sempre vou pela mão do Pai, mas neste tempo muito mais porque tenho as horas todas do mundo… E para dar a mão ao Pai e dizer-lhe: bom, eu tenho a certeza que se Isto acontece, é porque Tu queres algo de mim. E aí que eu estou, não é?… Se isto vai em frente, algo Deus quer. Logo veremos… Por isso eu ainda não saí, nem da montanha, nem do deserto. Aqui estou… Eis-me aqui. Também quero dizer-vos que sinto as orações de todos: combonianos, combonianas, leigos, família, a minha terra… isso também me ajudou muito. Há pessoas que me dizem: Há muito tempo que eu não rezava, mas comecei a rezar por ti. Por isso, o Pai me ama, E eu a Ele. Por isso, já veremos para onde a vida nos leva…
"somente levamos daqui o amor que damos e recebemos, juntamente com a alegria e o carinho"
NOTA: Mercedes nasceu a 23 de abril de 1972 e faleceu a 4 de dezembro de 2025, vítima de um cancro no cérebro
#testemunho #vida #amor #serviço #missão #familia #leigos #lmc #comboni #cancro #cancer
(Mercedes Navarro, LMC)
Foi na nossa primeira visita ao Uganda. O Raúl e eu pensávamos: como já estamos dentro dos LMC (Leigos Missionários Combonianos), com esta oportunidade de estar lá na África, nós vamos ficar lá uns meses com o Padre Longinos.
Bom, foi esta a experiência que eu tive: as noites eram de tiroteio… e... as pessoas de facto morrem de fome! E eu... não sei... É que eu vivi na pele uma realidade que não tinha vivido em Madrid, mesmo se já tinha visto aquilo muitas vezes na televisão.
Para mim foi como lembrar São Paulo, que caiu, ficou na escuridão, ficou cego três dias. Também eu fiquei meia perdida. Voltei a Madrid e dizia: a mim a África já não me vê mais! E, para além disso, também vos digo, que aquele foi o ano em que o padre Juan Nuñes partiu para a Etiópia e deixou de acompanhar os LMC. Eu queria que me acompanhasse o padre Pepe Barranco, que agora anda por aqui e eu gostava de o ver. Eu precisava de contar a alguém o que eu tinha vivido no Uganda, porque não sabia como entendê-lo ou interpretá-lo.
Bom, em vez de um ano, isso tudo me levou alguns anos até que eu senti que o Pai me transformava por dentro. Ele me dizia: isso que tu vives é a realidade, não o que tu vives em Madrid, tão cómoda na tua casa. É que as pessoas de facto morrem de fome. Isso é real… É real quando tu o tocas e o sentes e o cheiras. Porque cheirá-lo também é importante!! E então esses três anos me levaram a essa transformação mental. E a dizer: Sim. Vamos para a África. Mas eu disse: Que não haja tiros. Então mandaram-me para Moçambique. Lá encontrei a irmã Mari Carmen. Para mim esses anos foram vividos de outra maneira. Mudei a minha vida. Mas depois foi ainda mais difícil voltar a Madrid. Voltar à M30 e à M 40… Parece que isto aqui eu já não entendo! E isso é só para falar da minha dificuldade quando regressei. Quando eu voltei já não era a mesma pessoa. E era somente a primeira missão.
Agora a segunda. Vamos a ver se eu consigo… Com os meus irmãos LMC, com quem eu rezo às segundas feiras, eu vivi aquilo que estou vivendo como um deserto. Sinto-me no deserto. Agora, olhando para a montanha, também Jesus subiu a montanha. Eu não digo que não… Custa-me muito subir a montanha mas claro, estávamos a viver o momento muito calmo e muito bom na família. E com os LMC também. Uma felicidade… Não sei. É como levar tudo… Agora eu tenho muito tempo para pensar. Os formandos estão agora aqui, porque eu sou monitora de formação comboniana, o que me enche o coração. E eu, que tenho o melhor trabalho, do qual gosto tanto, ser professora de física e química. Eu estava a viver um momento na vida em que eu pensava: Uau, tudo vai tão bem. E acontece que chega outra grande queda: como São Paulo, pumba. E esta vez… Pois apesar de eu já ter tido um cancro, eu não o tinha visto assim tão dramático, porque não foi: depois de dois meses eu já estava de novo a trabalhar. Mas desta vez, este tumor aqui no cérebro… este sim me abalou. Como é que eu posso dizer… é que o cérebro é muito importante, E sobretudo porque os médicos não me diziam o que ia acontecer. É preciso operar, e depois não se sabe... Só agora é que eu disse ao Raúl onde quero que me enterrem. Eu pensava: vamos lá ver, um sitio bonito. E assim, já decidimos. Eu conto isto porque foi para mim muito traumático, e para o Raúl também.
Foi um tempo… Porque é que eu falava de deserto? Por que deixei a minha vida para encontrar outra coisa, para parar. E neste parar, encontrar-me com o Pai, com o qual sempre eu vou pela mão. Eu sempre vou pela mão do Pai, mas neste tempo muito mais porque tenho as horas todas do mundo… E para dar a mão ao Pai e dizer-lhe: bom, eu tenho a certeza que se Isto acontece, é porque Tu queres algo de mim. E aí que eu estou, não é?… Se isto vai em frente, algo Deus quer. Logo veremos… Por isso eu ainda não saí, nem da montanha, nem do deserto. Aqui estou… Eis-me aqui. Também quero dizer-vos que sinto as orações de todos: combonianos, combonianas, leigos, família, a minha terra… isso também me ajudou muito. Há pessoas que me dizem: Há muito tempo que eu não rezava, mas comecei a rezar por ti. Por isso, o Pai me ama, E eu a Ele. Por isso, já veremos para onde a vida nos leva…
"somente levamos daqui o amor que damos e recebemos, juntamente com a alegria e o carinho"
NOTA: Mercedes nasceu a 23 de abril de 1972 e faleceu a 4 de dezembro de 2025, vítima de um cancro no cérebro
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