Na Turquia secular, onde o Islão é a religião predominante, e no Líbano multiconfessional, o único país do Médio Oriente onde o chefe do Estado tem sido, com apoio da maioria muçulmana, um católico maronita, o Bispo de Roma convidou os fiéis a rejeitar o «horror da guerra» e a preparar um futuro fraterno e justo. Findas as comemorações dos 1700 anos do histórico Concílio de Niceia, o seu plano, para 2033, é celebrar, em Jerusalém, dois milénios da Ressurreição de Jesus.
Muitos olhos estavam postos na primeira viagem apostólica de Leão XIV, à Turquia e ao Líbano – dois países que ele nunca visitara –, para perceber se seguiria os passos de Francisco. Por exemplo, seria controverso como Jorge Mário Bergoglio quando em 2013, ao regressar do Brasil ao Vaticano, quebrou um tabu ao falar sobre católicos homossexuais: «Se uma pessoa é gay e procura Deus, quem sou eu para a julgar?»
A tradição inaugurada pelo antecessor que, no voo Rio de Janeiro-Roma, deu uma surpreendente entrevista colectiva, de microfone na mão, respondendo a 21 perguntas durante quase uma hora e meia, não foi quebrada por Robert Francis Prevost. (João Paulo II andava pelo avião, mas falava só com um ou dois jornalistas, não facilitando que outros ouvissem as respostas; Bento XVI exigia que as perguntas lhe fossem enviadas antecipadamente e escolhia apenas três ou quatro, segundo a BBC.)
O nativo do Midwest também não se cansou de, em várias paragens pelo Middle East, evocar e agradecer os exemplos do argentino que promoveu a sua carreira clerical. No entanto, observaram vários analistas, se Leão «ecoou a mensagem de Francisco», não copiou o seu «tom» nem o seu «estilo».
No dia 2 de Dezembro, a bordo do Shepherd One, ao fim de um périplo de seis dias, o discurso «mais surpreendente» do primeiro papa norte-americano foi a revelação, à jornalista Cindy Wooden, da agência Catholic News Service (CNS), de que, antes do conclave que, em Maio, o escolheu, tinha planos para se reformar: «Há apenas um ano ou dois, pensei em aposentar-me.» No entanto, quando se tornou claro que, entre os 133 cardeais presentes, era o favorito para ocupar a Cadeira de São Pedro, rendeu-se: «Tudo está nas mãos de Deus. Acredito nisso profundamente.»
No grupo de quase 80 jornalistas que, de 27 de Novembro a 2 de Dezembro, acompanharam o discreto Leão XIV nas suas deslocações a Ancara, Iznik e Istambul; Beirute, Annaya, Harissa, Bkerké, e Jal ed Dib, a enviada do diário The New York Times, Motoko Rich, notou que ele «raramente procurou chamar a atenção para si próprio» e «nunca se desviou do roteiro». Ao contrário do efusivo Francisco, que tinha «plena consciência» de que os seus frequentes improvisos «teriam impacto» mediático.
«Muitas vezes divirto-me com a forma como os jornalistas interpretam as minhas expressões», ironizou o pontífice enquanto falava com Cindy Wooden, da CNS, brincando que ela, por se reformar no final de Dezembro, teve «mais sorte» do que ele. «É interessante. Às vezes, vocês dão-me grandes ideias, porque pensam que conseguem ler a minha mente ou o meu rosto. Mas nem sempre acertam.»
A quem o quiser conhecer melhor, sobretudo a sua «espiritualidade no meio de grandes desafios», Leão XIV recomendou «um livro muito simples», A Prática da Presença de Deus, «escrito por alguém que nem sequer assina com o apelido»: Irmão Lourenço da Ressurreição.
Foi este frade da Ordem dos Carmelitas Descalços em Paris, que encontrava «a tranquilidade da presença de Deus no barulho e confusão» da sua cozinha e da oficina onde consertava sapatos, que ensinou ao papa «um tipo de oração em que entregamos simplesmente a nossa vida ao Senhor, permitindo que Ele nos guie».
Talvez o facto de o soldado e prisioneiro Nicolas Herman – nome de baptismo do Irmão Lourenço – ter decidido «combater sob a bandeira de Cristo numa profissão mais sagrada», depois de gravemente ferido na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), iniciada como disputa religiosa entre católicos e protestantes no Sacro Império Romano-Germânico, tenha também impulsionado o agostiniano Prevost a enfatizar a urgência de unidade e paz na sua estreia mundial como herdeiro da cadeira do jesuíta Bergoglio.
Uma Igreja pequena
Ao escolher para primeira viagem apostólica dois países que Francisco planeava revisitar, mas não conseguiu, devido a problemas de saúde, Leão XIV não foi apenas concretizar os desejos de um defunto, nem imitar outros antecessores, como Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, que também incluíram a Turquia secular e o Líbano multiconfessional nas suas digressões internacionais.
A selecção de dois Estados maioritariamente muçulmanos, berços de importantes comunidades cristãs, permitiu a Rob (para a família), Bob (para os amigos), dar uma ideia de quais são as prioridades de quem adoptou, para si e para a sua Igreja, o lema de Santo Agostinho, In Illo uno unum (Nele que é Um, somos um só).
Em 27 de Novembro, no primeiro dia na «Terra Santa do Novo Testamento», onde (em Tarso/Anatólia) nasceu o Apóstolo Paulo e onde (em Antioquia) os discípulos de Jesus receberam o nome de cristãos, o papa foi recebido pelo presidente, Recep Tayyip Erdogan, no seu imponente palácio em Ancara. Numa audiência privada e, depois, numa reunião na Biblioteca Nacional com outros dirigentes políticos, representantes da sociedade civil e membros do corpo diplomático, o visitante pediu ao anfitrião que a Turquia, «ponte entre a Europa e a Ásia», seja «um factor de estabilidade e reaproximação entre povos, ao serviço de uma paz justa e duradoura». Seja na Palestina («apesar de Israel recusar a única solução de dois Estados») ou na Ucrânia. Porque «o futuro da Humanidade está em jogo».
De Ancara, o papa seguiu para Istambul, onde, a 28 de Novembro, presidiu a um encontro de oração, na Catedral do Espírito Santo, com bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados e agentes pastorais. Dirigindo-se às cerca de 800 pessoas concentradas dentro e fora do templo, o papa procurou desvalorizar o facto de, na Turquia, 98% muçulmana, os quase 60 mil católicos (dos ritos latino, arménio, caldeu e siríaco) representarem apenas 0,6% da população (eram 35% em 1915, o ano em que começou o genocídio arménio).
«A lógica da pequenez é a verdadeira força da Igreja», realçou Prevost no seu discurso. É uma força que «não reside nos seus recursos e nas suas estruturas, nem os frutos da missão derivam de consenso numérico, poder económico ou relevância». Pelo contrário, é uma força que «vive da luz do Cordeiro e é chamada a confiar sempre na promessa do Senhor. [...] A história que vos precede não é algo simplesmente para recordar num passado glorioso, enquanto, resignados, olhamos para o presente da Igreja Católica, que se tornou numericamente menor».
O foco deve ser outro. A presença «muito significativa de migrantes e refugiados» na Turquia – quase 10 milhões, principalmente vindos da Síria, mas também do Iraque, Afeganistão e Irão – «coloca a Igreja perante o desafio de acolher e servir aqueles que estão entre os mais vulneráveis neste país», afirmou Leão XIV, pedindo aos missionários aqui presentes um «compromisso especial» com a adaptação da prática da fé à língua e aos costumes turcos.
O marco histórico de Niceia
Depois de Istambul, Leão XIV seguiu para Iznik (cidade situada na região de Mármara, antiga Niceia), a 130 quilómetros de distância: o ponto alto da visita à república herdeira do antigo Império Otomano. Ali, a convite do patriarca ecuménico Bartolomeu I, líder espiritual da Igreja Ortodoxa de Constantinopla, foi celebrar os 1700 anos de um encontro histórico que definiu a profissão de fé cristã.
Convocado pelo imperador Constantino, o Grande, em 20 de Maio de 325 d. C., o Primeiro Concílio de Niceia, que reuniu mais de 300 bispos de todo o Império Romano, cumpriu o objectivo de preservar a unidade da Igreja face a correntes teológicas heréticas, como o Arianismo, que negavam a divindade de Cristo e o dogma da Santíssima Trindade.
Nas margens do lago Iznik, onde estão submersas as ruínas da basílica bizantina de São Neófito, o que mais fascinou Gerard O’Connell, correspondente no Vaticano da revista jesuíta America, foi «o encontro invulgar» que lhe trouxe à memória as interacções de Jesus e dos Apóstolos no mar da Galileia. «Era um grupo pequeno», recorda O’Connell. «Só lá estavam Leão, Bartolomeu, 26 representantes de outras igrejas, jornalistas e agentes de segurança – não havia mais ninguém. Foi emocionante.» Durante 45 minutos, os religiosos discursaram, oraram e cantaram, em grego, latim, árabe, espanhol e inglês.
A efeméride foi «uma ocasião preciosa» para o papa questionar «quem é Jesus na vida das mulheres e dos homens de hoje», e insurgir-se por Cristo ser reduzido a «uma espécie de super-homem» na cultura contemporânea. «A fé num só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos [Credo Niceno], é um vínculo profundo que une todos os cristãos. Somos todos convidados a superar o escândalo das divisões infelizmente ainda existentes.»
Um sinal destas divisões, anotou a agência católica Gaudium Press News, foi a ausência em Iznik de qualquer representante da Igreja Ortodoxa Russa – «herdeira do legado imperial de Bizâncio» –, devido a uma ruptura consumada em 2018, quando Bartolomeu I reconheceu como independente a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, em resposta à invasão ordenada pelo Kremlin em 2022.
Cirilo I, Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa desde 2009, é visto pelos críticos como alguém que se «rebaixou para ser um acólito de Vladimir Putin» – expressão usada por Francisco, embora este tenha ocasionalmente «manifestado simpatia pelos queixumes geopolíticos de Moscovo». Leão XIV segue uma via diferente da do seu mentor, defendendo o direito da «mártir» Ucrânia à autodeterminação: «O uso da religião para justificar a guerra, ou qualquer forma de fundamentalismo e fanatismo, deve ser rejeitado com veemência.»
«A cadeira vazia em Niceia», comentou a Gaudium Press, «pode ser um sinal claro de que Roma já não está disposta a pagar o preço eclesiástico ou o preço moral de manter um lugar aquecido para um patriarca que escolheu a agressão e não a comunhão com outras Igrejas irmãs.»
Bartolomeu, o primeiro patriarca ortodoxo a assistir à investidura de um papa (Francisco), comoveu-se com a cerimónia em Niceia, porque lhe «recordou o passado» e «deu um testemunho vivo da fé cristã». Na sua opinião, «o Credo Niceno actua como uma semente para toda a nossa existência cristã», mas a realidade parece mais sombria.
Apesar de comum às Igrejas católica, ortodoxas orientais e bizantina, anglicana, luterana e outras protestantes, «a doutrina trinitária é rejeitada por milhões de fiéis de denominações actuais, como os Mórmones, os Pentecostais apostólicos, os Unitaristas e as Testemunhas de Jeová», analisa o historiador Vítor Rafael no site Sete Margens. Querer «resolver, de forma definitiva, as questões cristológicas e contribuir para uma efectiva unidade da Igreja» permanece «uma tarefa inacabada», porque continuam a surgir «novas maneiras de interpretar as Escrituras».
Por estar ciente destas divisões é que, em 29 de Novembro, na primeira missa que celebrou na Turquia, para cerca de 4000 pessoas no salão de concertos Volkswagen Arena em Istambul, Leão XIV insistiu na exortação a que todos «caminhem juntos, derrubando os muros do preconceito e da desconfiança».
A vontade de união seria novamente expressa em orações partilhadas na Igreja Ortodoxa Síria de Mor Efrem, na Catedral Arménia Apostólica e na Igreja Patriarcal (ortodoxa oriental) de São Jorge em Istambul, depois de uma visita à Mesquita Azul. Sobre o que aqui se passou, clarificando «relatos curiosos», Leão XIV esclareceu posteriormente que evitou rezar «tão visivelmente» como os antecessores, descrevendo a sua presença como «uma experiência vivida em silêncio, em espírito de recolhimento e escuta, com profundo respeito pelo lugar e pela fé» dos que ali se reúnem.
Um «pedaço do Céu»
No dia 30, sob o lema Bem-aventurados os obreiros da paz, Leão partiu para o Líbano, a nação que, nos versos proféticos de Khalil Gibran, «está cheia de crenças e vazia de religião», mas que na «voz de ouro» do lendário cantor Wadih el-Safi, apurada no coro de uma escola católica, «é um pedaço do céu».
O Líbano, um lar de 17 confissões religiosas, ligadas por histórias de massacres sectários desde 1860, que é também, na definição do cientista político Michael C. Hudson, em The precarious Republic: political modernization in Lebanon, «um conjunto de comunidades tradicionais unidas pelo entendimento mútuo de que não se pode confiar noutras comunidades».
Os Libaneses receberam Leão XIV como um pai salvador, «temendo ficar órfãos quando ele voltasse a Roma», na leitura do vaticanista Gerard O’Connell. Os três principais dirigentes políticos – o presidente da República, Joseph Aoun, católico maronita; o primeiro-ministro, Nawaf Salam, muçulmano sunita; e o presidente do Parlamento, Nabih Berri, muçulmano xiita – deram-lhe as boas-vindas no aeroporto, à chegada e à partida, deram-lhe a conhecer os seus anseios e preocupações.
Joseph Aoun, ex-chefe do Exército (posto ocupado sempre por maronitas desde a independência, em 1943), único cristão na chefia de um Estado árabe, implorou-lhe: «Diga ao mundo que não podemos morrer, partir ou desesperar, nem nos podemos render. Permaneceremos aqui, a respirar a liberdade, a inventar a alegria, a aperfeiçoar o amor, a valorizar a inovação, a abraçar a modernidade, a criar, a cada dia, uma vida que valha a pena ser vivida.»
«Há momentos em que é mais fácil fugir, ou mais conveniente mudarmo-nos para outro lugar; é preciso coragem e visão para ficar e regressar ao próprio país», respondeu o papa, consciente de que os católicos do Líbano (maronitas, greco-melquitas, arménios, caldeus, siríacos e latinos – todos leais ao Bispo de Roma), embora muito influentes e com uma diáspora poderosa, são agora uma minoria e continuam divididos.
Neste Líbano fragmentado, ainda há, porém, espaços de comunhão como o Mosteiro de São Maron, em Annaya, onde, a 1 de Dezembro, o papa foi orar diante do túmulo de São Charbel Makluf (1828-1898), figura dominante do panteão religioso nacional que atrai peregrinos de todas as crenças em busca de milagres. Até chegar à abadia de Maron al-Qorashi, o eremita sírio do século iv-v que fundou a Igreja Maronita, são mais de 40 quilómetros, subindo a cerca de 1200 metros de altitude, para homenagear Charbel, o monge padroeiro do Líbano que Paulo VI canonizou em 1977. Milhares de pessoas acompanharam-no ao longo deste e de outros trajectos, decorados com cartazes aclamando-o «mensageiro da paz».
De Annaya, o papa percorreu outros 42 quilómetros até ao Santuário de Nossa Senhora do Líbano, em Harissa, um dos centros marianos mais importantes do Médio Oriente, símbolo de fé para os cristãos do País dos Cedros e do resto do mundo. Aqui se encontra uma estátua de Maria, com mais de oito metros de altura, de braços estendidos, num monte 650 metros acima do nível do mar, sobre a baía de Jounieh.
Num encontro com bispos, sacerdotes, consagrados e agentes pastorais, na presença de 4000 outras pessoas reunidas na basílica do santuário, o papa ouviu testemunhos como o da agente pastoral filipina Loren Capobres, auxiliadora de uma mãe refugiada que deu à luz depois de caminhar durante três dias com outro filho pela mão: «Na coragem deles vi a luz de Deus brilhando nos momentos mais sombrios.»
«Que mais ninguém tenha de fugir por causa de conflitos absurdos e impiedosos», suplicou o papa, encorajando «a obra louvável» da comunidade católica no país que tem o maior número de refugiados per capita do mundo – 1 em cada 6 habitantes, ou 2,5 milhões, a maioria sírios e palestinos.
Em 1 de Dezembro, o pontífice teve ainda um encontro com líderes cristãos (católicos, ortodoxos e protestantes) e de tradição islâmica (drusos, sunitas, xiitas e alauitas) na Praça dos Mártires, em Beirute, «um lugar excepcional onde minaretes e torres das igrejas convivem lado a lado», e também um encontro com jovens, na praça em frente ao Patriarcado Maronita de Antioquia, em Bkerké.
Em Beirute, fez um apelo: «Nesta terra dilecta, que cada sino ressoe, cada adhān, cada chamamento à oração, se una num único hino que se eleva aos céus.» Em Bkerké, depois de saudado como «Papa da Paz» pelo cardeal maronita Bechara Boutros Rai, ouviu e aconselhou milhares de jovens, pedindo-lhes que não cedam ao desânimo da guerra e sejam «seiva de esperança» rejeitando a vingança e a violência.
Resistência ao mal é o amor
Num país constantemente bombardeado por Israel apesar de um cessar-fogo assinado há um ano (o papa evitou visitar Trípoli e o Norte, o vale de Bekaa e o Sul, sobretudo as cidades bíblicas de Tiro e Sídon) e que enfrenta a pior crise financeira, económica e social da sua história, os que têm entre 15 e 24 anos são os mais penalizados.
Em 2023 (dados mais recentes), o desemprego entre os jovens ascendia a 23,55%, o que leva numerosos profissionais qualificados a emigrar. Esta fuga de cérebros atinge, em grande medida, os cristãos que, nas décadas de 1960-70, deixaram de ser a maioria da população e, hoje, serão entre 25% e 45%. O último censo é de 1932; ninguém quer outro, para não abalar «o frágil equilíbrio confessional».
«Queridos jovens, talvez lamentem ter herdado um mundo dilacerado por guerras e desfigurado por injustiças sociais», solidarizou-se o papa. «Mas vocês têm um dom que muitas vezes nós, adultos, parecemos ter perdido. Vocês têm esperança! Vocês têm tempo! Vocês têm mais tempo para sonhar, planear e fazer o bem. Vocês são o presente e, nas vossas mãos, já se constrói o futuro! A verdadeira resistência ao mal não é o mal, mas o amor.»
A 2 de Dezembro, para uma mensagem de amor aos mais pobres e frágeis, Leão XIV foi até Jal ed Dib, 11 quilómetros a norte de Beirute, visitar o Hospital la Croix, uma das maiores instituições para portadores de deficiência mental no Médio Oriente, administrado pelas Irmãs Franciscanas da Cruz. Seguiu depois para o local onde, em Agosto de 2020, uma dupla explosão destruiu o porto de Beirute, causando 245 mortos, 7000 feridos e 300 mil desalojados.
Diante do monumento de tributo aos que perderam a vida, o papa depositou flores, acendeu uma vela, rezou em silêncio, confortou sobreviventes e famílias das vítimas, que, com apoio da Igreja Católica, continuam a exigir uma investigação independente ao que sucedeu.
Não muito longe do porto, na Beirut Waterfront, Leão XIV, agora já não um desconhecido, deixou um pedido às 150 mil pessoas que assistiram à missa que antecedeu a sua despedida: «O Médio Oriente necessita de novas abordagens para rejeitar a mentalidade de vingança e violência. [...] Sejam artesãos da paz, arautos da paz, testemunhas da paz. O caminho da hostilidade mútua e da destruição no horror da guerra está a ser percorrido há demasiado tempo, com resultados deploráveis à vista de todos.»
Foi uma viagem «muito bem-sucedida», avaliou o jornalista irlandês Gerard O’Connell. A próxima, anunciou o papa aos jornalistas no avião que o transportou até Roma, poderá incluir a Argélia, onde Santo Agostinho nasceu e foi bispo, e outros países africanos. Também gostaria de voltar à América Latina – ao Peru onde foi missionário 25 anos, e à Argentina de Francisco. Para 2033, tem um plano ainda mais grandioso: reunir em Jerusalém as igrejas cristãs do Credo Niceno para celebrar os 2000 anos da Ressurreição de Jesus.