Voz profética nos camarões

27/12/2025
Enrique Bayo, jornalista

A antena camaronense da organização internacional Rede África-Europa Fé e Justiça (AEFJN, na sigla em inglês) foi fundada em 2010 por várias congregações missionárias com o objectivo de promover a justiça e defender a dignidade humana à luz da Palavra de Deus. Apostando no trabalho em rede e na estreita colaboração entre religiosos e leigos, a antena gera vida e dá esperança a milhares de pessoas.



A equipa de coordenação da AEFJN-Camarões, conhecida localmente como Associação Fé e Justiça, é composta por cinco pessoas, dois religiosos e três leigos. Além da brasileira, a única não camaronense da equipa, o outro religioso é o padre Simon Valdez Ngah, pertencente à congregação dos Missionários dos Sagrados Corações e coordenador nacional da antena. Entre os leigos, conheço Joël Nomi, um jurista que desde pequeno se identificou com a bem-aventurança dos que têm sede de justiça e quis estudar Direito para seguir esta vocação.

A AEFJN-Camarões centra o seu trabalho em cinco eixos fundamentais que o padre Valdez enumera de forma sintética: prevenção da circulação e do consumo de drogas na escola, acompanhamento de comunidades afectadas pela apropriação de terras, programas de coesão social com pessoas deslocadas internamente – em especial as afectadas pelo conflito da Ambazonia –,
projectos de inserção social de jovens com deficiências e reforço das capacidades psicossociais.

Apesar de a messe ser grande para tão poucos trabalhadores, o padre Valdez esclarece que «não estamos sozinhos. Somos religiosos e em cada província eclesiástica contamos com grupos de religiosos e religiosas, mas também de leigos, muito empenhados na busca da justiça social. Com eles, que nos ajudam a recolher informações no terreno, organizamos as nossas actividades».

Além disso, o coordenador nacional realça a boa colaboração que mantêm com os bispos diocesanos e com as comissões diocesanas de Justiça e Paz, onde elas existem. A AEFJN-Camarões também faz parte de plataformas da sociedade civil, como a Aliança pela Soberania Alimentar ou a Plataforma de Luta contra as Drogas, com as quais colabora assiduamente. Por trás desta rede diversificada de relações e sinergias esconde-se o segredo dos «pequenos resultados que experimentamos e que nos dão muita alegria e ânimo para não pararmos no nosso trabalho», afirma, satisfeito, o padre Valdez.



Apropriação de terras

Nos Camarões, como noutros países africanos, está a aumentar o número de populações vítimas da expropriação das suas terras. Joël Nomi conhece muito bem este fenómeno e aponta dois tipos de acumulação fraudulenta. Por um lado, há as multinacionais estrangeiras que solicitam terrenos ao Estado em troca de quantias avultadas. Neste caso, o Governo apropria-se deles ignorando os procedimentos legais, sem indemnizações e violando o espaço vital da população. Outro tipo de exploração que se está a alastrar é protagonizado por autarcas locais com algum poder económico e influência que obtêm documentos de propriedade e despojam as populações das suas terras.

Perante situações deste tipo, «a nossa primeira acção é acompanhar as populações para que tomem consciência de que têm o direito de reclamar e que, além disso, só elas têm a capacidade de o fazer, porque ninguém as pode substituir. Informamo-las sobre as leis fundiárias em vigor e orientamo-las para que se apoiem nos chefes tradicionais e no direito consuetudinário. A maioria das pessoas não tem títulos de propriedade e as terras passam de uma geração para a seguinte, mas essa continuidade no uso das terras é fonte de direito nos Camarões», salienta Nomi. As populações enfrentam adversários muito poderosos, daí a importância de se organizarem, porque «reivindicar de forma dispersa não funciona», afirma o jurista com convicção.

Nomi recorda o caso de Ambam, um departamento do vale de Ntem, onde, em 2021, um grupo local coordenado por uma empresa camaronense com sede em Yaoundé conseguiu expropriar fraudulentamente mais de 31 000 hectares que afectavam 21 aldeias para desenvolver o projecto Plants et Aquaculture du Cameroun (PAC).
A AEFJN-Camarões convidou a população a denunciar esta violação, alertou a imprensa e organizou ateliês informativos. Graças à mobilização, o primeiro-ministro camaronês, Joseph Dion Ngute, anulou o PAC e as terras foram devolvidas às populações. «Foi um trabalho que exigiu muito tempo e inúmeras viagens ao terreno, mas no final fica a alegria de ter contribuído para pôr fim a essa injustiça», afirma com satisfação o advogado.

 



Drogas

O aumento do consumo de drogas entre os jovens é outro dos desafios da AEFJN-Camarões, que procura enfrentar através da Plataforma de Luta contra a Droga. «Centramos o nosso trabalho de sensibilização sobretudo em estabelecimentos escolares e paróquias, tentando incutir bons hábitos entre os jovens», afirma o padre Valdez.

Nestas sessões – e em palestras onde se alerta os jovens sobre os perigos do consumo de substâncias ilícitas – dão muita importância aos encontros com professores, animadores juvenis e pais, nos quais abordam questões como a necessidade de proteger os jovens, a detecção de sinais que alertam que um jovem está a consumir drogas ou os passos a dar para acompanhar alguém que quer deixar de o fazer.

Nas escolas, além da prevenção, a antena camaronense organiza sessões sobre questões ambientais e ecológicas, lembra a irmã Geny da Silva, para quem «o grito da terra e dos pobres é um desafio constante que nos exige potenciar a ecologia integral» proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’. O padre Valdez acrescenta que a antena está a pressionar «para que sejam introduzidas matérias de formação ambiental no currículo escolar e também na pastoral».

 



Coesão social

Outro eixo de acção da EAFJN-Camarões está relacionado com o conflito armado que, desde 2017, opõe o Governo camaronês a vários grupos separatistas das duas regiões anglófonas do Oeste do país. Como consequência desta crise, mais de um milhão de pessoas da Ambazonia procuraram refúgio noutras zonas do país. Em alguns locais, a presença de deslocados internos está a causar graves problemas de convivência.

O programa de coesão social com os deslocados internos da AEFJN-Camarões tem como primeiro ponto de acção a organização de sessões de formação com os religiosos e religiosas presentes na zona, para que sejam os primeiros a «informar e sensibilizar as pessoas e facilitar o acolhimento dos deslocados», salienta o padre Simon Valdez. Também são propostas medidas concretas para que «os deslocados em zonas rurais tenham acesso a um terreno para cultivar sem ter de pagar renda e, no final do ano, de acordo com a produção que obtiverem, entreguem uma parte ao proprietário do terreno».

Outro aspecto importante destes programas é interpelar as autoridades locais sobre a sua obrigação de garantir o acolhimento dos deslocados, de modo que ponham à sua disposição todos os recursos da zona, como centros de saúde ou pontos de água. Segundo o jurista da antena, «as populações locais também sofrem com a falta de recursos e não se pode fazer recair sobre elas toda a responsabilidade pelo acolhimento, por isso é importante o envolvimento das autoridades como reguladoras da convivência».



Capacitação psicossocial

Entre Dezembro de 2024 e o início de 2025, a AEFJN-Camarões organizou sessões de formação nas cinco províncias eclesiásticas do país sobre o reforço das capacidades psicossociais para religiosos e religiosas, embora também tenham participado alguns padres diocesanos e catequistas. O objectivo destes encontros foi oferecer ferramentas úteis para lidar com a gestão dos traumas e do passado doloroso, não só dos deslocados internos, mas de todos os tipos de pessoas afectadas por estes problemas que a antena enfrenta.

O padre Valdez, coordenador da AEFJN-Camarões, reconhece que no país «é difícil encontrar serviços especializados em psicologia e muitas pessoas vêm à igreja para serem ouvidas, partilhar as suas experiências e pedir conselhos para se libertarem dos seus traumas. O problema é que nós, religiosos, nem sempre estamos bem formados para este tipo de acompanhamento e podemos até criar mais feridas do que soluções. A via mais comum é espiritualizar tudo, dizer «vamos rezar» e ficar por aí, sem suspeitar que a pessoa também precisa de ajuda especializada».

No total, cerca de 180 pessoas receberam esta formação e agora são chamadas a ensinar aos outros o que aprenderam. Os conteúdos foram ministrados por membros da Comissão de Psicólogos da Conferência Nacional de Superiores Maiores e por profissionais de duas entidades: a Fundação de Psicologia RAPHA-Psy e a ONG Bring Ligth Save Live, membro da Federação Mundial contra as Drogas.



Desafios

Os três membros entrevistados da equipa de coordenação da AEFJN-Camarões concordam em apontar a questão financeira como o seu principal desafio. «Estamos muito preocupados com a falta de fundos para o desenvolvimento normal das actividades, especialmente se tivermos dificuldades em pagar às pessoas que trabalham connosco», diz a irmã Geny da Silva.

A AEFJN-Camarões recebe ajuda da Conferência Episcopal e da Conferência Nacional dos Superiores e Superioras Maiores. Também recolhem donativos de voluntários, de congregações religiosas, além de uma pequena contribuição anual do escritório da AEFJN em Bruxelas. Mas não é suficiente. «Sem o apoio da Missio Aachen e da Fundação Roncalli, teria sido impossível organizar as sessões de formação para reforçar as capacidades psicossociais», salienta o padre Valdez, que se queixa amargamente da falta de apoio financeiro do Governo camaronês. Na opinião do religioso, o Executivo não leva a sério as questões relacionadas com a justiça e a paz. Para o demonstrar, apresenta um volumoso arquivo com documentação. «Estas cartas são os pedidos de ajuda que fizemos a diferentes ministérios e instituições públicas. Respondem sempre educadamente, acusando a recepção, mas nunca oferecendo dinheiro», diz o religioso, que acrescenta: «O Ministério da Saúde deveria preocupar-se com o aumento do consumo de drogas entre os jovens, mas sempre que pedimos ajuda para subsidiar as nossas sessões de sensibilização nas escolas, nunca obtemos resposta.» O coordenador nacional lamenta também que tenham tido de reduzir o acompanhamento às comunidades afectadas pela apropriação de terras por falta de meios para cobrir as despesas de deslocação.

Além do site e da animação nas redes sociais, a AEFJN-Camarões elabora trimestralmente o boletim Shema para informar e sensibilizar sobre os seus projectos e programas. São impressos 450 exemplares que são distribuídos gratuitamente entre as congregações, colaboradores, ONG e instituições. Também aqui estão a encontrar dificuldades para financiar esta pequena publicação.

Outro desafio que apontam é a falta de vozes proféticas dentro da Igreja. A partir da antena, «elaboramos relatórios sobre o que observamos no terreno e entregamo-los aos bispos, porque são eles que devem apresentá-los à opinião pública e aos políticos», diz o padre Valdez, dando a entender com um gesto que a maioria dos prelados não responde às expectativas.

 



Inserção social

Terminada a entrevista, percebo que me esqueci de perguntar sobre o trabalho de inserção social de jovens com deficiência, um dos cinco eixos de acção da AEFJN-Camarões. Para resolver isso, entregam-me documentação com uma explicação minuciosa. Estes projectos são realizados em paróquias e centros escolares de quatro dioceses – Garoua, Bertoua, Bafoussam e Yaoundé – e têm como objectivo evitar a exclusão de adolescentes e jovens com surdez, deficiências da fala, doenças mentais ou limitações visuais. Também se ocupam da atenção à população albina. A organização de ateliês, sessões de sensibilização e elaboração de materiais são alguns dos meios utilizados para levar adiante estes projectos.

Saio da sede da Conferência Nacional dos Superiores e Superioras Maiores feliz por ter encontrado um grupo de pessoas comprometidas e dotadas de uma «fé activa» – como gosta de dizer o padre Simon Valdez – que, com grande simplicidade e humildade, estão a conseguir verdadeiros milagres e são verdadeiros «mensageiros e construtores de esperança».