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No contexto da corrida armamentista global verifica-se o maior aumento em décadas nos arsenais militares atómicos e o risco de proliferação.
No actual cenário de tensões globais e crescimento de gastos militares, a segurança nuclear é responsabilidade de todas as nações que utilizam a tecnologia. A preocupação continua a ser primordial, devido ao poder destrutivo e à ameaça que representa para a Humanidade.
Imagem retirada de um vídeo divulgado pelo serviço de imprensa do Ministério da Defesa russo mostra o lançamento de um míssil balístico intercontinental Yars, no âmbito de exercícios das forças de dissuasão nuclear, a partir do Cosmódromo de Plesetsk, na região de Arkhangelsk, no Noroeste da Rússia, Outubro de 2024
Os arsenais nucleares mundiais estão a ser ampliados e modernizados, com quase todos os nove países com armas nucleares (Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel) a continuarem os seus programas de avanços tecnológicos atómicos, actualizando as armas existentes e acrescentando versões mais recentes.
Desde o início da década de 1990, com o fim do período de tensão geopolítica entre o Bloco Ocidental e o Bloco Oriental (Guerra Fria), o desmantelamento gradual das ogivas nucleares desactivadas pela Rússia e pelos Estados Unidos tem ultrapassado a implantação de novas ogivas, resultando numa diminuição geral anual do arsenal nuclear global.
Esta tendência irá inverter-se nos próximos anos, à medida que o ritmo de desmantelamento abranda, enquanto a implantação de novas armas nucleares se acelera. «A era da redução do número de armas nucleares no mundo, que durou desde o fim da Guerra Fria, está a acabar», afirma Hans Kristensen, investigador do WMDP, programa de armas de destruição maciça do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI). Em vez disso, assiste-se a uma clara tendência de crescimento dos arsenais nucleares, intensificação da retórica nuclear e abandono dos acordos de controlo de armas.
Em conjunto, a Rússia e os Estados Unidos possuem cerca de 90 % de todas as armas nucleares. A dimensão dos seus respectivos arsenais de ogivas termonucleares utilizáveis mantém-se relativamente estável, mas ambos os países estão a implementar extensos programas que poderão aumentar a dimensão e a diversidade dos seus arsenais atómicos no futuro. Se não for alcançado nenhum novo acordo para limitar os seus arsenais, o número de ogivas termonucleares irá provavelmente aumentar após o termo do tratado bilateral de redução de armas estratégicas New START (2010), em Fevereiro de 2026.
Fotografia divulgada pela agência oficial de notícias norte-coreana (KCNA) a 29 de Janeiro de 2025, mostra o líder supremo Kim Jong-Un a inspeccionar uma base de produção de material nuclear e o Instituto de Armas Nucleares num local não revelado na Coreia do Norte.
Aumento estratégico
A falta de sinais de negociações para renovar ou substituir o tratado New START, não significa necessariamente o fim do controlo de armas entre a Rússia e os Estados Unidos, mas que pode haver uma alteração nos seus termos. O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo antecipa que «o aumento do arsenal nuclear da China tornará as negociações eventuais mais difíceis. A geometria de um acordo equilibrado entre dois lados já é suficientemente complexa; entre três, torna-se diabólica».
O relatório SIPRI Yearbook 2025 revela que o arsenal nuclear chinês está a crescer mais rapidamente do que o de qualquer outro país, avançando que a China poderá ter, pelo menos, o mesmo número de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) que a Rússia ou os Estados Unidos até ao final da década. Nas ogivas termonucleares, mesmo que a China atinja o número projectado até 2035, tal ainda representará apenas cerca de um terço dos actuais arsenais nucleares da Rússia e dos Estados Unidos.
Quando o mundo comemora o 80.º aniversário das únicas vezes em que as armas nucleares foram utilizadas em guerra, os bombardeamentos de Hiroxima e Nagasáqui, no Japão, o tabu contra o uso de armas nucleares sobrevive e fortalece-se, como registou o Comité Nobel Norueguês (DNN) ao atribuir o Nobel da Paz 2024 ao movimento de sobreviventes nucleares japoneses Nihon Hidankyo. No entanto, novos riscos significam que vale a pena rever o actual desafio nuclear.
«As armas nucleares representam um risco existencial para a população mundial, assim como a perturbação ecológica, cujo impacto na paz e na estabilidade começa a ser sentido num contexto em que a insegurança já está a aumentar», alerta Dan Smith, director do SIPRI.
O arsenal nuclear mundial tinha vindo a diminuir há quase 40 anos, de um total de bombas e ogivas estimado em cerca de 64 mil na década de 1980, para 12 240 em 2025.
Em cima, uma imagem retirada de um vídeo divulgado pelo serviço de imprensa do Ministério da Defesa russo mostra militares russos a operar um míssil nuclear não estratégico do sistema de mísseis táctico-operacionais Iskander, durante a segunda fase dos exercícios nucleares tácticos das forças armadas da Rússia e da Bielorrússia, Junho de 2024.
Em baixo, o Promotion Hall da Província de Hiroxima, Japão, ficou quase directamente abaixo do hipocentro da explosão da bomba atómica lançada pelas forças armadas americanas, em 6 de Agosto de 1945; agora a estrutura, conhecida como a Cúpula da Bomba Atómica de Hiroxima, integra o Parque Memorial da Paz.
Energia da desintegração
Em Março, a IAEA organizou em França a Nuclear Energy Summit Paris 2026, a segunda cimeira de energia atómica, que registou «um interesse crescente pela energia nuclear em todo o mundo. É considerada por muitos países como um complemento essencial às energias renováveis para a produção de electricidade de baixo carbono», resumiu Rafael Grossi, director-geral da agência. Muitos dos países estão interessados em pequenos reactores modulares pré-fabricados (SMR).
A agência com sede em Viena (Áustria) assegura uma presença contínua nas centrais nucleares na Ucrânia, a fim de prevenir um acidente nuclear enquanto decorre o conflito com a Rússia. Simultaneamente, a IAEA garante ter introduzido medidas adicionais de confiança e transparência após os acidentes nucleares na central nuclear ucraniana de Chernobyl (1986) e japonesa de Fukushima Daiichi (2011), para proteger a população e o meio ambiente dos efeitos nocivos da radiação.
As projecções para o potencial crescimento da energia nuclear para produção de electricidade nas próximas décadas estão em alta. A perspectiva para a capacidade nuclear global de geração de electricidade aumenta significativamente, com cerca de 50 países a demonstrarem interesse em adicionar energia atómica à sua matriz energética, e 37 países em fases de iniciação ou implementação de programas nacionais de energia nuclear.
Actualmente, três dezenas de países operam centrais nucleares, gerando 10% da electricidade mundial. Os maiores produtores são os Estados Unidos e a França, enquanto a China é o país com maior ritmo de crescimento e construção de novos reactores, mantendo-se a Rússia como importante produtora e exportadora de tecnologia nuclear. Entre os países do Sul global que operam centrais nucleares, destacam-se o México, Brasil e Argentina, a África do Sul e a Índia e Paquistão.
Entretanto, a União Europeia anuncia a expansão do uso de energia nuclear considerando a actividade «sustentável». Para a presidente da Comissão Europeia, a redução da indústria nuclear «uma fonte confiável e acessível de energia com baixas emissões de gases de efeito de estufa» foi um «erro estratégico», afirma Ursula von der Leyen. A meta declarada pela UE é aumentar a instalação de reactores SMR até 2030, com o aceleramento na concessão de licenças e o alinhamento da regulamentação entre os Estados-membros. Críticos apontam para a produção de lixo altamente tóxico, além das consequências de acidentes nucleares para populações e ecossistemas, no que é considerada uma estratégia «retrógrada», já que electricidade mais limpa e mais segura, proveniente do vento e do sol, é mais barata, vem impulsionando a transição energética há muito tempo e não produz resíduos radioactivos.