Sob (apertada) vigilância

17/01/2026
Paolo Moiola, jornalista

Acaba de celebrar os setenta anos da sua autonomia. Durante este período, Xinjiang conheceu um desenvolvimento económico sem precedentes, enaltecido pelas autoridades chinesas. Subsistem, todavia, dúvidas quanto à real condição dos Uigures, a etnia originária desalojada pelos Han.



Passo de Torugart. Eis a fronteira. Alexander, o motorista do miniautocarro quirguiz, não se cansa de repetir: «Nada de fotos, por favor.» Di-lo em russo, mas todos, mesmo sem conhecerem a língua, percebem o sentido. Situado a 3752 metros de altitude, o Torugart é o passo que liga o Quirguizistão ao Xinjiang, região autónoma no Noroeste da China. Em redor, as montanhas estão completamente despidas, e, no entanto, belas, graças a um céu límpido e a um sol resplandecente. Não faltam cumes nevados — estamos em meados de Outubro —, mas ficam mais distantes.

À nossa frente, a fronteira «conta» muitas coisas. Não tanto pelo arame farpado nos portões ou pelas bandeiras vermelhas com estrelas, mas pelo número exagerado de câmaras colocadas em todos os ângulos imagináveis. Esta é considerada uma fronteira «sensível», mas o tráfego é reduzido e unidireccional. Passam apenas camiões pesadíssimos carregados de reluzentes automóveis chineses rumo ao Quirguizistão.

Esperamos pacientemente à beira da estrada quando um oficial chinês se aproxima de nós, já em terra de ninguém, para nos dizer que devemos permanecer dentro do miniautocarro. Ou seja, não podemos atravessar o portão enquanto do outro lado não chegar o autocarro da agência chinesa, mas também não podemos ficar ao ar livre a desfrutar do ar fresco e da paisagem.




Depois de mais de uma hora e meia, avisam-nos de que podemos seguir a pé. Junto ao portão de entrada há uma primeira verificação de passaportes, outra nos gabinetes fronteiriços e ainda uma terceira em frente ao autocarro que nos espera. Já a bordo, ao fim de poucos metros o veículo tem de parar para que suba um agente que quer verificar os nossos documentos. Com esta, chegamos já à quarta verificação.

Entretanto, conhecemos o guia, cuja presença na fronteira é obrigatória. «Chamo-me Adil», disse-nos num inglês impecável. E acrescentou logo de seguida que era uigure — uma precisão mais significativa do que o nome. Os Uigures são a etnia originária do Xinjiang, com língua própria (túrquica) e praticantes do islão sunita. Quanto à sua condição, os pareceres dividem-se: as Nações Unidas, organizações internacionais de direitos humanos, associações de exilados uigures (como o Congresso Mundial Uigure) e fontes jornalísticas sustentam que a população uigure é perseguida desde 1949 (ano da anexação pela China comunista), acusação que o Governo de Pequim rejeita com indignação. «O Xinjiang», escrevia em Julho de 2021 o gabinete de informação da China (SCIO), «é hoje uma sociedade estável e ordeira, onde os grupos étnicos locais vivem em harmonia e paz mútuas.»




Bandeiras e propaganda

Finalmente, o nosso autocarro deixa a fronteira e começa a descer em direcção a Caxigar, por uma auto-estrada que salta à vista pelos rails de protecção azulados. A paragem seguinte é numa esquadra da polícia, para um novo controlo minucioso: recolha de dados biométricos dos passageiros e inspecção da bagagem por scanner. E não será o último.

Ao fim de 165 quilómetros e nada menos que oito controlos policiais, quando chegamos às portas de Caxigar (ou Kashi), segunda cidade do Xinjiang, a seguir à capital, Urumqi, já se adensam as sombras do entardecer, mas a escuridão é quebrada pelo caleidoscópio das luzes urbanas. Em cada esquina, à frente de cada montra e de cada porta, tremula uma bandeira chinesa. E como se não bastassem as bandeiras, este ano assinala-se o septuagésimo aniversário (1955-2025) da criação da Região Autónoma do Xinjiang. Por isso, as autoridades encheram as ruas de cartazes e faixas a exaltar as virtudes da sua política.

A julgar pelo número de carros em circulação, novos e quase todos de fabrico chinês, ao menos no plano económico o Partido [Comunista] parece ter razão.

Por fim, sempre com os olhos colados à janela do autocarro, damos ainda por outro facto surpreendente: a imagem estereotipada de multidões de chineses de bicicleta desapareceu por completo. Hoje, toda a gente se desloca de motorizada, necessariamente eléctrica.




Ao longo da mítica Estrada do Caracórum

Para o primeiro dia, Adil planeou uma excursão ao lago Karakul, situado a 3600 metros de altitude, ao longo da mítica Estrada do Caracórum. Para lá chegar, é contudo necessário solicitar uma autorização num gabinete da cidade (Kashi City Immigration Service Center), que encontramos apinhado até ao impossível. Segundo as estatísticas oficiais, em 2024 o Xinjiang recebeu 300 milhões de turistas, quase todos chineses. O número é monstruoso, mas plausível: sinizar a região uigure é, desde sempre, um objectivo de Pequim, ainda mais evidente desde que Xi Jinping está no poder (2013). Concluída em 1978, a Estrada do Caracórum é moderna, mas tem um ADN antigo: segue em grande parte a antiga Rota da Seda, de que Caxigar era ponto fulcral. Construída pelos governos do Paquistão e da China ao longo do sistema montanhoso do Caracórum, tem cerca de 1300 quilómetros e é considerada a estrada asfaltada mais alta do mundo. No passo de Khunjerab, na fronteira entre os dois países, atinge os 4693 metros de altitude.

Apesar das paragens nos inevitáveis postos de controlo e de uma fila interminável de autocarros, o percurso é espectacular, pois a estrada serpenteia por entre montanhas cobertas de neve (com pelo menos três picos acima dos 7500 metros) e lagos de cores magníficas. Os Chineses transformaram um longo troço da estrada (até ao lago Karakul) num negócio florescente, com centenas de autocarros turísticos a circularem por ali todos os dias durante grande parte do ano. No entanto, a quase totalidade dos turistas fica-se, felizmente, dir-se-ia, pelas margens dos lagos Baisha e Karakul, sem se aventurar pelas pradarias e vales em redor.

Junto aos lagos, a paisagem é única. Os habitantes locais, provavelmente criadores de gado, inventaram, assim, uma nova ocupação: levar os turistas à beira-lago montados num iaque branco ou num camelo. Seja como for, também aqui tudo é vigiado: basta erguer um pouco a cabeça para ver uma sucessão de câmaras instaladas em postes brancos.




A História apagada pelas escavadoras

A alma de Caxigar é a Cidade Velha, cuja fundação remonta a mais de dois mil anos. Hoje ocupa uma área de quase nove quilómetros quadrados, com vinte ruas e inúmeros becos, todos rigorosamente interditos aos automóveis. É, sem dúvida, um lugar sugestivo e agradável, mas chamar-lhe velho é um exagero. Na realidade, quase todo o bairro foi demolido (com recurso a escavadoras) e reconstruído a partir de 2009. Na altura, as autoridades chinesas justificaram a decisão com motivos de segurança: os edifícios correriam risco de ruir em caso de sismo. Assim, na prática, a Cidade Velha é uma nova Cidade Velha. As casas são mais sólidas, as ruas muito mais largas, mas o seu coração é hoje bem mais chinês do que uigure ou islâmico.

Antes da demolição, viviam ali mais de duzentos mil uigures; hoje, os residentes são pouquíssimos.
A suspeita de que o risco sísmico tenha sido apenas um pretexto conveniente para impor uma escolha política de Pequim é mais do que legítima. Na nova Cidade Velha, tudo está pensado à medida do turista, que ali encontra todo o tipo de comidas e mercadorias.
E não só.

Já nos havia surpreendido o número e o rigor dos controlos na fronteira, mas não foi menor o espanto à entrada da Cidade Velha: para aceder, é obrigatório — sempre e sem excepção — passar por um scanner e por um detector de metais. É verdade que os funcionários nem sempre são agentes da autoridade, mas em todo o lado se tem a sensação de se estar permanentemente sob vigilância.




Um silêncio religioso

A grande maioria dos uigures é muçulmana sunita. Em Caxigar, porém, a presença islâmica é silenciosa. A mesquita de Id Kah (ou Etigar) dá para a praça homónima, a poucas centenas de metros de uma das entradas da Cidade Velha. Construída num estilo arquitectónico muito linear, com um tom amarelo-pálido e dois minaretes idênticos a ladear o pórtico, é considerada a maior da China, embora à primeira vista não o pareça.

Para entrar, paga-se bilhete e passa-se, como sempre, por um body scanner. No interior, além da ampla sala de oração, a única coisa digna de nota é o pátio, com muitos álamos de grande porte. E um cartaz: narra a história da mesquita, mas sobretudo realça os fundos públicos atribuídos ao edifício, como prova, lê-se, da «política de liberdade religiosa» e da «preservação das tradições étnicas» por parte do Governo chinês.

No exterior da mesquita, um pequeno destacamento de polícias, dois da polícia civil e seis da Polícia Armada Popular, circula entre a multidão heterogénea de transeuntes.

Depois de adiarmos durante dias, tentamos fazer a Adil algumas perguntas de actualidade, necessariamente genéricas para não o comprometer. As respostas, contudo, são previsíveis e nada esclarecem sobre a realidade da região. A situação política, explica-nos, não levanta qualquer problema.
A economia vai muito bem e quase não há pobres. Este último ponto parece ter algum fundamento: no Xinjiang, a pobreza (multidimensional) afecta 5,73 por cento da população (dados de 2025), o que é de facto um valor baixo.

E a internet, que não permite abrir sites estrangeiros?, arriscamos ainda. «Temos os nossos», responde Adil. «Não sei porque é que os outros não abrem.»




Os uigures estão no mercado

Se a Cidade Velha foi reconstruída à medida do turista (ou, segundo os críticos mais duros, transformada num centro comercial a céu aberto), se o troço chinês da Estrada do Caracórum é muitas vezes uma serpente interminável de autocarros cheios de excursionistas, já o mercado de gado, que se realiza todos os domingos numa localidade a poucos quilómetros da cidade, continua a ser um lugar autêntico, senão mais, porque é frequentado por camponeses e criadores de gado, muitos com o típico gorro uigure, conhecido por doppi.

Num vaivém constante de carrinhas e triciclos motorizados, os espaços sob os pavilhões enchem-se de ovelhas, cabras, vacas, iaques, cavalos, burros e alguns camelos. Vindas até ali para fazer negócio, as pessoas observam, conversam, negoceiam vendas ou compras.

E suportam com paciência, por vezes, até com um sorriso, a presença dos forasteiros, sejam curiosos ou turistas, que se metem por entre as ovelhas e as vacas apenas para tirar fotografias.


A outra passagem

É tempo de regressar ao Quirguizistão. Na nossa, embora breve, estada no Xinjiang, deixámos certamente muitas impressões digitais, desde a entrada até à saída da região. Também aqui, em Irkeshtam, os controlos são minuciosos e tecnologicamente avançados.

Comparado com o passo de Torugart (por onde entráramos), o passo de Irkeshtam encontra-se a uma altitude inferior, ligeiramente abaixo dos três mil metros. É por aqui que se passa a caminho de Osh, a segunda maior cidade do Quirguizistão.

A fronteira está semivazia, mas é provavelmente uma situação temporária, já que os Chineses estão a construir estradas e edifícios, e eles não fazem nada por acaso.



O Xinjiang (新疆) e o avanço dos Han

Cronologia essencial de Xinjiang entre 1949 e 2025.

 



1949, 1 de Outubro. Na sequência da vitória do Partido Comunista de Mao Tsé-tung na guerra civil, é proclamada a República Popular da China. No Xinjiang, encerram-se as breves experiências da «República Islâmica do Turquemenistão Oriental» (Caxigar) e da «República do Turquemenistão Oriental» (Ghulja).

1953. No primeiro censo, mais de 75% da população da região era composta por uigures, maioritariamente muçulmanos sunitas, enquanto os chineses de etnia Han representavam apenas 7%.

1955, 1 de Outubro. O Governo chinês cria a «Região Autónoma Uigure do Xinjiang» (Xinjiang Uyghur Autonomous Region, XUAR) e começa a incentivar a instalação de chineses Han na região.

Anos 1990. As acusações de discriminação e marginalização dos uigures por parte dos imigrantes han estão na origem de um crescente sentimento anti-han e independentista.

Anos 2000. A China acusa o Movimento Islâmico do Turquemenistão Oriental (Eastern Turkistan Islamic Movement, ETIM), um movimento separatista islâmico, de ser responsável pelos actos de violência. Pequim responde com uma combinação de repressão e investimento económico na região, sobretudo através das suas empresas estatais.

2009. Pequim lança um plano milionário — em inglês, Kashgar Dangerous House Reform — para demolir e reconstruir a Cidade Velha de Caxigar. A justificação oficial é o risco representado pelas casas antigas. A comunidade uigure e observadores internacionais acreditam que o objectivo real é apagar a identidade uigure e islâmica.

2009, 5 de Julho. Registam-se confrontos entre uigures e chineses Han em Urumqi, a principal cidade da região. A morte de 200 pessoas leva Pequim a enviar grande número de tropas. 

2013, 28 de Outubro. Cinco uigures, ao volante de um jipe com bandeiras jiadistas, entram na Praça Tiananmen, em Pequim, matando dois civis e ferindo mais de quarenta transeuntes.

2014. Em nome da segurança nacional e da luta contra o terrorismo, o Governo chinês adopta leis e políticas repressivas que, na prática, criminalizam qualquer expressão normal de identidade religiosa ou cultural. Em Janeiro, Ilham Tothi, economista e professor de etnia uigure, é condenado a prisão perpétua por separatismo.

2018, Agosto. O Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial debate a situação das minorias étnicas na China. Reconhecem-se progressos económicos, mas critica-se o tratamento da minoria uigure e muçulmana.

2019, Julho. Vinte e dois embaixadores da ONU enviam uma carta de protesto contra o tratamento dos uigures por parte da China. Poucos dias depois, trinta e sete outros embaixadores (incluindo os da Rússia e Coreia do Norte) respondem com uma carta de apoio a Pequim.

2022, Maio. Pela primeira vez em dezassete anos, a alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, visita a China e o Xinjiang (Caxigar e Urumqi).

2022, 31 de Agosto.  É publicado o relatório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, segundo o qual as políticas chinesas no Xinjiang podem constituir crimes contra a humanidade. A China responde com um contra-relatório intitulado «Combater o terrorismo e o extremismo no Xinjiang: a verdade e os factos».

2024, Janeiro. O Gabinete de Informação do Conselho de Estado da China divulga o enquadramento jurídico das suas medidas antiterrorismo, com destaque para a situação no Xinjiang. 



2025, 1 de Outubro. Peritos das Nações Unidas manifestam séria preocupação com a crescente criminalização dos Uigures e de outras minorias na China, citando os casos do artista Yashar (Yaxia’er Xiaohelaiti) e da antropóloga Rahile Dawut, condenada a prisão perpétua em 2023 por atentado à segurança do Estado.

2025, 1 de Outubro. Assinala-se o 70.0 aniversário da criação da Região Autónoma Uigure do Xinjiang (1955-2025). «Nestes 70 anos», escrevem com grande ênfase os meios de comunicação chineses, «o Xinjiang registou mudanças extraordinárias.»

2025, 9 de Novembro. O Congresso Mundial Uigure denuncia a deportação de uma mulher uigure, Rizwangul Bekri, da Alemanha para a China.

2025, 12 de Novembro. Aproveitando-se de uma polémica entre Donald Trump e a BBC, um editorial do Global Times ataca a televisão pública britânica pelas suas reportagens sobre o Xinjiang. Repressão e trabalhos forçados — escreve o jornal oficial — são apenas invenções jornalísticas para denegrir a China.

Paolo Moiola