Cristãos do Irão: À espera que as portas se abram

11/03/2026
Margarida Lopes, jornalista

Na República Islâmica, é muito significativo o número dos que se convertem ao Cristianismo, apesar de perseguidos por um sistema de «apartheid religioso». A minoria católica (assírios-caldeus, arménios e de rito latino) continuam a ser o que o Papa Francisco designava por uma «Igreja de 0,...%», mas o importante, como diz o primeiro cardeal de Teerão-Isfahan, é «manter uma presença» que seja sempre «um convite para entrar».

 



O historiador Charles A. Frazee dizia que a palavra «paraíso», com origem na antiga língua persa (pairi-daēza), foi adoptada pelos cristãos como sinónimo de Céu. Porque só a inimitável beleza dos jardins reais, sobretudo o de Pasárgada, construído pelo xá, aqueménida e ecuménico, Ciro, o Grande (550-330), podia descrever a «felicidade celestial».

Hoje, na República Islâmica do Irão, a palavra que melhor descreverá o estado de alma dos cidadãos talvez seja duzakh – «inferno». Porque em quase meio século de uma opressiva teocracia, nunca viveram uma crise política, económica, social e moral tão profunda, agudizada pelo «pior massacre», cometido em Janeiro, durante manifestações pacíficas. Difícil de apurar, o balanço de vítimas oscila, consoante fontes credíveis1, entre 7000 e mais de 30 mil mortos (incluindo centenas de crianças), além de outros milhares de feridos e prisioneiros.

Entre as vítimas estão «numerosos cristãos», afiança Fred Petrossian, jornalista e investigador irano-arménio, forçado ao exílio na Europa, «por necessidade, não por opção», para escapar a uma «ideologia totalitária» que, desde 1979, sujeita as minorias a um sistema de «discriminação institucionalizada», um «apartheid religioso».

No Irão, explica Petrossian, numa entrevista à Além-Mar, os cristãos dividem-se, de modo geral, em dois grupos: os «cristãos étnicos» — principalmente arménios e assírios (grupo em que se incluem os caldeus, católicos fiéis a Roma). Estes, ao contrário dos convertidos ao Cristianismo, têm igrejas, instituições comunitárias e lugares reservados no Parlamento2. Mas o reconhecimento «não significa igualdade», pois são-lhes negados vários direitos. Legais, como o direito a herança, ou laborais, como o acesso a empregos na função pública.

Durante a Guerra Irão-Iraque (1980-1988), «todos os iranianos [que sofreram um milhão de mortos] defenderam o seu país, independentemente das diferenças de fé ou etnia», lembra Petrossian. «No entanto, este sentimento de unidade raras vezes se traduz em cidadania igual em tempos de paz. Quando as minorias já não são politicamente úteis, volta a impor-se a discriminação. Na guerra somos irmãos, depois tratam-nos como estranhos, cidadãos de segunda ou terceira classe.»

«Os dados demográficos são reveladores», salienta Petrossian. «Embora a população total do Irão tenha mais do que duplicado desde a revolução [de 38,4 milhões em 1979 para 92,4 milhões em 2025], as minorias religiosas sofreram um declínio populacional acentuado; estima-se que só os arménios sejam agora apenas um quinto dos [300 000, quando Khomeini derrubou a monarquia]. E este declínio não é acidental.»




Quando se sente acossado, o regime usa a propaganda. Em Novembro, inaugurou a estação de metro Maryam-e Moghaddas (Virgem Santa Maria), frente à Catedral de São Sarkis, a maior igreja arménia de Teerão. Ali estão expostos um relevo de Cristo caminhando sobre a água, um retrato de Maria em grande destaque rezando entre flores e uma placa com a inscrição: «A mensagem de Jesus é a da salvação da Humanidade das trevas, da ignorância, da corrupção, da depravação e da discriminação.»

A obra foi apresentada pelos meios de comunicação social estatais como «símbolo de coexistência cultural», porque Maria também é venerada no Islão, mas cristãos como Petrossian, que arriscam ser executados se converterem muçulmanos ou ser presos se as forças de segurança encontrarem na sua posse a Bíblia em persa, consideram-na uma tentativa de «projectar uma imagem de tolerância que não reflecte a realidade».

Petrossian é crítico dos representantes dos arménios e assírios no Parlamento que «repetem muitas vezes a narrativa oficial» e que, em alguns casos, «se distanciam publicamente dos cristãos perseguidos [...], apoiando até o discurso de ódio do Estado contra os conversos». A representação cristã entre os 290 deputados do Majlis «acaba por funcionar como um mecanismo de controlo».  A obediência é premiada; a dissidência é castigada.

Esta realidade terá pesado na decisão que Petrossian, autor do livro Why Christian Converts Flee Iran, tomou quando, «ao descobrir Cristo, na adolescência», trocou a ortodoxa Igreja Apostólica Arménia por uma protestante Assembleia de Deus em Teerão.

Sobre esta transição, ele explica: «Tal como outras pessoas no Ocidente, os arménios e assírios podem optar por ser ateus ou agnósticos, ou frequentar uma igreja diferente da dos seus pais. Eu e muitos outros tivemos várias razões para começar a frequentar igrejas protestantes, incluindo uma abordagem mais moderna, a pregação [do Evangelho] e os estudos da Bíblia – não encontrámos isso na tradicional Igreja Arménia.
A quem me pede uma definição, digo apenas que sou cristão.»

«Quando falamos de minorias religiosas, é importante distinguir entre as que são reconhecidas pela Constituição – zoroastras, judeus e cristãos, como os arménios e os assírios – e as que não são de todo reconhecidas», esclarece Petrossian. «Os convertidos ao Cristianismo, os bahá’ís, os yarsanis e os mandeus são efectivamente invisíveis para o Estado. Todos os direitos básicos lhes são negados. São como “fantasmas”. Quando acabei o ensino secundário, percebi que não havia futuro para mim e abandonei o Irão», onde a «ideologia totalitária» do regime «desumaniza os dissidentes como “inimigos de Deus”».




Cada vez mais conversões

«O monopólio da República Islâmica sobre o discurso religioso, em conjunto com décadas de repressão brutal [...] criou uma espécie de “inferno diário” para a população iraniana», acusa Petrossian. Um país que poderia ser imensamente rico, enfrenta cortes de electricidade e uma das piores crises hídricas da sua história, com 80% dos reservatórios vazios, além de hiperinflação e corrupção sistémica — foi este o motor dos protestos nacionais de Dezembro, que mobilizaram até os comerciantes do bazar, que financiaram a chegada de Khomeini ao poder.

As autoridades culpam as sanções internacionais, impostas e constantemente agravadas desde há 47 anos, mas o activista irano-arménio alerta que as sanções também enriqueceram muitos elementos do regime. «É justo dizer que República Islâmica se tornou a própria máfia.»

Neste contexto, o Cristianismo «proporciona aos Iranianos mais do que um sistema de crenças», avalia o antigo editor online do serviço persa da Rádio Europa Livre. «Para muitos, representa um quadro moral com uma visão do mundo que interessa aos convertidos, e eles estão dispostos a sacrificar-se pela sua fé.» As mesquitas, pelo contrário, «são cada vez mais usadas como centros de detenção e tortura, o que degrada ainda mais o seu valor sagrado».

«Os convertidos constituem hoje a maior comunidade cristã do Irão, tendo aumentado de umas poucas centenas antes de 1979 para centenas de milhares e, segundo algumas estimativas, mais de um milhão», destaca Petrossian. «Não são, porém, reconhecidos legalmente. As suas igrejas funcionam em casas que são rotineiramente alvo de rusgas» e de denúncias dos vizinhos.

A primeira vítima da repressão, assassinada em Shiraz, berço do amado poeta Hafez, oito dias após a revolução islâmica, foi o pastor Arastoo Sayyah, um convertido à Igreja Anglicana, cujos hospitais e outras propriedades foram subsequentemente confiscados. As detenções continuam de norte a sul do país, em grandes cidades e pequenas aldeias, o que, na opinião de Petrossian, «demonstra como o Cristianismo se propaga por todo o país». Muitos dos convertidos são jovens e mulheres, e estas desempenham um papel fundamental na organização e liderança das «igrejas domésticas clandestinas».




À espera do renascimento?

Quantas pessoas professam o Cristianismo num país que se aproxima dos 93 milhões de habitantes? «Há as estatísticas oficiais e as outras», afirma, entrevistado pela Além-Mar, Jean-Marie Humeau, sacerdote da Diocese de Pontoise e vigário episcopal do Ordinariato dos Católicos das Igrejas Orientais Residentes em França, responsável pelo acolhimento dos convertidos iranianos. «Como a conversão é estritamente interdita, sob pena de prisão, de tortura, de morte, o número exacto é desconhecido.»

Ramzi Garmou, o antigo arcebispo assírio-caldeu de Teerão, estimava que «havia entre 1 e 3 milhões de cristãos convertidos clandestinos», refere Humeau. São evangélicos e pentecostais, na sua maioria. No caso dos convertidos que o sacerdote acompanha, «a escolha da igreja faz-se à sua chegada a França».

Sob vigilância constante das forças de segurança, D. Garmou foi obrigado a assinar um documento que o proibia de qualquer tipo de evangelização junto de muçulmanos que, no Irão e no seu Iraque natal, são predominantemente xiitas. Segundo o site católico suíço cath.ch, ele «chegou a ser convocado pela polícia secreta, que o avisou para não trabalhar com persas, sob pena de ser expulso do país».

«Só com autorização escrita do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica lhe era permitido acolher na sua residência muçulmanos estudantes da religião cristã, porque a lei reprime severamente o proselitismo e a apostasia.» O regime, acrescentou o sítio de internet católico suiço, «está consciente de que há mais e mais conversões ao Cristianismo, influenciadas em parte pelas emissões religiosas televisivas a partir dos Estados Unidos».

No Irão, os caldeus e latinos leais ao Bispo de Roma são comunidades minúsculas: «24 000 no total», segundo o jornalista Giuseppe Caffulli, do portal terrasanta.net, que, em 2025, calculava serem «150 000 os cristãos arménios (apostólicos, católicos e evangélicos), 30 000 os assírios, havendo ainda um punhado de cristãos ortodoxos».

O Papa Francisco dava prioridade às «Igrejas de 0,...% e, por isso, em 2021, nomeou Dominique Joseph Mathieu para liderar a Arquidiocese Católica Latina de Teerão-Isfahan (com seis paróquias e cerca de 2000 fiéis). Três anos depois, designou-o cardeal — o primeiro num país onde o Cristianismo existe, sem interrupção, há 2000 anos.

Inquirido sobre a importância dos laços diplomáticos entre o Irão e o Vaticano, estabelecidos em 1954 — o embaixador iraniano junto da Santa Sé, um aiatola, assistiu à investidura do cardeal Mathieu; há cooperação entre instituições católicas e a Universidade de Qom, por exemplo, bastião do clero xiita —,
o padre Humeau recorda: «No século xiii, a Igreja Persa cobria um território muito maior do que a Igreja de Roma. Será uma maneira de evocar essa memória e antecipar um renascimento? Não sei dizer.»

A realidade é que, tal como a missão de Ramzi Garmou, a de Dominique Joseph Mathieu, um dos cardeais do conclave que elegeu o Papa Leão XIV, também não é fácil. Numa entrevista à rede de média EWTN News, o franciscano belga disse que «os católicos só se podem reunir em igrejas reconhecidas pelo Estado e só eles têm permissão para entrar nestes lugares de oração». Podem fazê-lo durante os habituais serviços religiosos ou durante cerimónias que têm de ser previamente comunicadas às autoridades.




«As nossas portas existem e estão abertas a estas pessoas [os crentes], mas estão fechadas a quase todas as outras», admitiu o cardeal. «Nós, do rito latino, também mantemos as portas abertas aos irmãos das igrejas arménia e assíria — eles podem entrar, não há problema, porque não somos uma igreja étnica. Mantemos uma porta aberta, rezando no interior, esperando que um dia, quem sabe, a porta possa ser aberta a outros.»

«Estou convencido, talvez fortalecido pelo facto de ser franciscano, da importância do nosso testemunho, que não é verbal», destacou Mathieu, aludindo ao papel dos cristãos na sociedade iraniana. «Não se pode fazer proselitismo, mas isso não nos impede de viver em sociedade e dar testemunho [da fé]».

Ao contrário do Turquia, adiantou o cardeal à EWTN, os cristãos no Irão são livres de usar em público os seus hábitos religiosos e a cruz ao peito, por isso, deixou-lhes uma mensagem: «É importante o testemunho, a oração, uma vida virtuosa, o trabalho pela nossa santificação, porque assim também seremos verdadeiramente o fermento para [este] país. Podemos ser o sal que dá a vida.»

«Há uma grande sede de espiritualidade» entre os católicos iranianos, acredita Mathieu, cujo círculo é restrito, incluindo apenas, além dele, o núncio apostólico e o secretário do núncio. Em 2024, quando falou à EWTN News, não havia bispos ou padres católicos latinos no Irão, apenas cinco Irmãs da Caridade, duas das quais trabalhavam há muitos anos num leprosário no Norte do país.



O perdão, fonte de paz

Em França, o padre Jean-Marie Humeau mostra-se mais pessimista. Quando lhe perguntamos qual o futuro para as igrejas no Irão fiéis a Roma, dado que a sua acção evangelizadora está limitada aos já baptizados e a tirania exacerba a emigração, responde: «Esse futuro está escondido nos desígnios de Deus. O poder [em Teerão] faz tudo para erradicar o Cristianismo.» Por exemplo, «é proibido restaurar uma igreja; caso se encontre em “mau estado”, é arrasada! A noção de “mau estado” é aqui extremamente subjectiva.»

Sobre os católicos convertidos que acompanha como vigário episcopal das Igrejas Orientais, Humeau especifica: «De modo geral, há dois tipos: os que fogem e chegam a França sem nada e os que já aqui se encontram há algum tempo (os pais vieram antes da revolução), tendo descoberto o Cristianismo em França.»

A missão do padre tem em conta esta realidade: «Para os recém-chegados, o [meu] papel é frequentemente o de acompanhante do catecumenato, estando presente activamente nos múltiplos procedimentos administrativos; para os outros, celebro a eucaristia em persa, para que eles mantenham a ligação com as suas raízes. Abordo simultaneamente duas dimensões: integração e identidade.»

E porque é que estes neocristãos, como têm sido designados, abraçam o Catolicismo? «Cada um fez o seu próprio caminho, mas vemos que a noção de perdão foi uma grande descoberta, uma fonte de paz. Muitas vezes, é o exemplo de um cristão que os interrogou interiormente. A descoberta da pessoa de Cristo teve um impacto profundo sobre toda a sua vida.»

Os conversos iranianos sob protecção do sacerdote francês «amam o seu país e detestam o regime» e «não fazem uma escolha unilateral», entre a oposição interna, como Narges Mohammadi, dissidente e Nobel da Paz, e a externa, como Reza Pahlavi, herdeiro da monarquia destituída em 1979, ela defensora de um referendo constitucional e eleições; ele favorável a uma intervenção militar dos EUA para o colocar no Trono do Pavão.

Os novos católicos iranianos «esperam a queda do regime, mas estão muito preocupados com os familiares que deixaram no Irão», diz o padre Humeau. «Não devemos esquecer que este regime valorizou de tal modo a delação, que levará tempo a que a desconfiança mútua desapareça.» Nas suas orações, enquanto a Administração Trump se prepara para a guerra ao mesmo tempo que negoceia com emissários de Teerão, eles «pedem a paz e o fim deste regime. Querem uma democracia e receiam uma nova ditadura...»

NOTAS

1. A agência Human Rights Activists in Iran (HRAI ou HRA), uma organização não governamental fundada em 2025 por defensores dos direitos humanos que se afirmam «neutrais e sem filiação política», com presença no terreno; o Center for Human Rights in Iran (CHRI) que diz colaborar com «uma extensa equipa de investigadores independentes, activistas da sociedade civil e defensores dos direitos humanos dentro do Irão».
2. No Irão, os cristãos, os judeus e os zoroastras (primeira religião da Pérsia) foram reconhecidos oficialmente como «minorias religiosas» pela Constituição de 1906. Em 1928, foi-lhes concedida representação parlamentar. Em 1943, obtiveram também autonomia em matéria de direito civil no que respeita à família: casamentos, divórcios, testamentos e adopções. Hoje, segundo a Constituição aprovada em 1979 e revista em 1989, os arménios têm dois deputados (um representando o Norte e outro o Sul), os Assírios têm apenas um, tal como os judeus e os zoroastras, mas, em termos jurídicos, perderam autonomia.

 



O Catolicismo deu-me a paz  que o Islão não me ofereceu

 



Sou Ali (1), um jovem iraniano da região de Teerão. Pedi asilo em França porque sinto receio e preocupação desde que soube que, devido às minhas crenças religiosas, me arrisco a ser condenado à morte, por enforcamento, sob acusações como «apologia do Cristianismo» e «ofensas ao Supremo Líder da República Islâmica [Ali Khamenei] e ao profeta».

Venho de uma família muito devota e praticante. Fui apresentado ao Islão e obrigado a praticá-lo desde criança. Os 21 meses do meu serviço militar obrigatório em 2019 afastaram-me definitivamente do Islão, das suas restrições, limitações e castigos.

Após este período, iniciei a minha vida profissional em parceria com um amigo desde os nossos tempos da adolescência, que identificarei apenas como A. Abrimos um escritório comercial, de venda e distribuição. A. e a sua família são católicos, e foi através da nossa convivência diária que eu descobri o Catolicismo, os seus costumes e tradições.

Como aproximadamente 50% dos nossos clientes também eram cristãos, fiquei impressionado com a bondade, a amabilidade e a honestidade deles, o que nem sempre era o caso entre os muçulmanos do meu círculo. Foi assim que comecei a sentir-me atraído pelo Cristianismo, que me trouxe a paz e o bem-estar interior que o Islão nunca me ofereceu.

Fomos interceptados várias vezes pela «polícia da moralidade» (2) enquanto fazíamos serviços de distribuição. Os agentes destruíam os nossos produtos, ali mesmo no chão, à nossa frente. Agrediam-nos e depois iam-se embora. Diziam que os nossos produtos não estavam conforme a lei islâmica.

Converti-me completamente ao Catolicismo. No nosso escritório, reuníamo-nos várias noites por semana com outros amigos, para falarmos sobre a vida de Jesus e a fé cristã. Um dos nossos vizinhos muçulmanos mais devotos mostrou-se descontente com o nosso negócio, porque os bens que vendíamos não são permitidos [pelo regime]. Este vizinho vigiava-nos constantemente e notou mudanças em mim.

Um dia, reparou na cruz que eu usava ao pescoço. Esbofeteou-me no elevador, cuspiu-me e chamou-me impuro. Para ele, eram impuros os produtos que eu vendia, e o meu sangue também era agora haram porque eu havia renunciado ao Islão. Descobrimos que o vizinho era membro da milícia Basij (3) na mesquita do nosso bairro. Tais incidentes não me desanimaram. Continuámos as nossas actividades profissionais e as reuniões dedicadas ao Cristianismo. Regularmente, eu convidava novos amigos para participarem.

Cheguei a França com um visto de turismo, acompanhado da minha avó, que precisa de ajuda, para celebrarmos o Ano Novo persa na casa de uma tia. Pouco depois, o meu pai, que permaneceu no Irão, informou-me de que os nossos escritórios haviam sido selados pelas autoridades, com um edital onde se lê: Fechado por promover o Cristianismo.

O meu amigo A. nada tem a temer, porque pertence a uma antiga minoria cristã étnica, que é reconhecida oficialmente. Mudar de religião e renunciar ao Islão é apostasia. Para quem for condenado, a sentença é a morte. Várias vezes o meu vizinho inquiriu o meu pai sobre o meu paradeiro. Acreditamos que foi ele o responsável pelo encerramento da loja. Em França, tenho agora o estatuto de refugiado.

Notas

1. Ali é um pseudónimo, por motivos de segurança.
2. Oficialmente designada Ghast-e Ershad ou Patrulhas de Orientação, a Polícia da Moralidade é a que impõe, por exemplo, a obrigatoriedade do uso do véu às mulheres.
3. Criada pelo aiatola Khomeini em 1979, para islamizar a sociedade e reprimir a dissidência interna, a milícia Basij-e Mostazafan (Organização para a Mobilização dos Oprimidos) é uma força militar subordinada aos Corpo de Guardas de Revolução Islâmica (Pasdaran). Em 2024, as autoridades iranianas admitiram que 79% das «bases da resistência» estão localizadas em mesquitas. Estas são usadas, segundo opositores do regime, como «centros de recrutamento, vigilância de bairros, repressão de protestos e centros de detenção e tortura».

 



A Igreja do missionário Tomé

 



Os católicos assírio-caldeus, leais ao Bispo de Roma, são uma das mais antigas comunidades cristãs do Irão. O martírio e a glória fazem parte da sua história.

Um dos textos bíblicos que o padre Jean-Marie Humeau costuma citar nas celebrações eucarísticas com os iranianos convertidos que ele acompanha em França é o das Bem-aventuranças. Não admira que muitos deles se ponham nas mãos de Deus quando ouvem Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque a perseguição e a injustiça marcam a história do Cristianismo na antiga Pérsia e no actual Irão.

Durante séculos, os governantes persas promoveram o Zoroastrismo como religião oficial e, quando o Cristianismo chegou ao Irão, enfrentou «uma considerável perseguição», anota o historiador Charles A. Frazee, num artigo publicado no portal da Catholic Near East Welfare Association (CNEWA). Nos séculos iv e v, sobretudo sob o reinado do xá sassânida Sapor II, que triunfou sobre o Império Romano, foram milhares os cristãos martirizados.

No entanto, até o Zoroastrismo, «primeira religião monoteísta da Humanidade», influenciou o Cristianismo, com conceitos como o dia do juízo final, céu e inferno, anjos e demónios, alguns dos quais terão sido transmitidos aos judeus da Babilónia quando foram libertados pelo imperador aqueménida Ciro, O Grande. Charles A. Frazee (1929-2019), que foi professor de História Bizantina na California State University, Fullerton, lembra que os sacerdotes zoroastras, conhecidos como «magos», são retratados no Evangelho de São Mateus como os primeiros gentios a adorar o Menino Jesus.

A tradição católica diz-nos que foi Tomé, «apóstolo da dúvida e da fé», o primeiro missionário na Pérsia e na Mesopotâmia (Iraque), antes de ir evangelizar a Índia, onde seria assassinado. Para se distinguirem da «Igreja do Ocidente», a que pertenciam os crentes do Império Romano, os primeiros persas convertidos ao Cristianismo chamavam a si próprios «membros da Igreja do Oriente».

A divisão entre a Igreja do Oriente e a Igreja do Ocidente consumou-se no século V, quando Nestório, patriarca de Cons-
tantinopla, negou a divindade de Jesus Cristo, uma posição teológica adoptada pela escola de Edessa, no Leste da Síria (hoje Urfa, na Turquia), influente entre os cristãos persas, que haviam «adoptado a liturgia siríaca e não se importavam que lhes chamassem sírios».

Em 431, no Terceiro Concílio Ecuménico da Igreja Cristã, reunido em Éfeso, Nestório foi declarado herege e deposto. Em vez de se submeterem à condenação do concílio, revela Frazee, «os emissários de Edessa migraram para a Pérsia, onde foram muito bem acolhidos dado o seu enorme prestígio, apesar da consequente ruptura com a restante Cristandade».

Nos séculos seguintes, apesar do seu isolamento, a Igreja Persa «sobreviveu intacta» sob a liderança dos bispos do Catolicato (equivalente a uma sé patriarcal) da Igreja Assíria do Oriente em Selêucia-Ctesifonte (antiga capital do Império Sassânida, na Mesopotâmia), que governavam com outros bispos espalhados pela região do mar Cáspio até ao golfo Pérsico, informa o autor de Catholics and Sultans.

No século vii, quando os Árabes invadiram a Pérsia e derrotaram o último xá sassânida e zoroastra Yazdeger III, a posição dos cristãos do Oriente melhorou significativamente, porque «eram favorecidos pelos novos governantes muçulmanos», de tal modo que, no séc. viii, assim que fez de Bagdad «a capital do mundo islâmico», Al-Mansour (ou Almançor), o segundo califa da dinastia Abássida, «convidou católicos para a sua residência».

Milhares de cristãos persas mudaram-se, então, com o seu líder para Bagdad, tornando-se «habitantes exclusivos» de uma parte da actual capital do Iraque. Foi um «período áureo», que permitiu ao Cristianismo «expandir-se e prosperar durante vários séculos», com missionários da Igreja do Oriente a estabelecer igrejas e pelo menos 200 dioceses na China, na Coreia e na Índia, ao longo da grande Rota da Seda.

Este período glorioso terminou com as invasões mongóis no século xiii. Embora os cãs mongóis «tolerassem» os cristãos, observa Charles A. Frazee, os seus ataques destrutivos abalaram-nos profundamente. «O declínio da população, a estagnação económica, a anarquia política e a pressão social para se converterem ao Islão reduziram drasticamente o número de cristãos persas.»

Terá sido mais ou menos por esta altura que os primeiros missionários de rito latino chegaram ao Irão: frades dominicanos enviados pelos papas de Avinhão encarregados de contactar os cãs. «Um deles até se tornou bispo de Sultaniyeh, nas proximidades da moderna cidade iraniana de Tabriz — mas não converteram muita gente.»

Só no século xvi é que o Catolicismo «deixou verdadeiramente a sua marca no Irão», destaca Frazee, quando um grupo que pertencia à Igreja do Oriente recusou a nomeação de um «líder incompetente». Por esta altura, o cargo de bispo principal do Catolicato era hereditário, passando de tio para sobrinho numa mesma família.

«Para legitimar a sua eleição, o abade João Sulaca, escolhido pelos dissidentes, foi convencido a procurar o apoio da Igreja do Ocidente», informa Frazee. «Deslocou-se primeiro a Jerusalém e depois a Roma, onde o Papa Júlio III, convencido da sua ortodoxia, o consagrou pessoalmente patriarca de Mossul, em 9 de Abril de 1553. Foi a primeira intervenção de Roma nos assuntos da Igreja Persa, e Sulaca tornou-se o primeiro patriarca oriental consagrado por um pontífice.» Para a distinguir da congénere herética, a Santa Sé deu à sua igreja oriental o nome de Caldeia.

Sulaca regressou ao Próximo Oriente, ansioso por criar uma igreja separada com a sua própria hierarquia. Os inimigos eram muitos e o patriarca foi torturado e executado em 1555. No entanto, «já era tarde para extinguir a Igreja Caldeia», cujos membros permaneceram em plena comunhão com Roma, «apoiados por um novo contingente de missionários latinos que começaram a chegar no início do século xvii».

O crescimento dos católicos no Irão impressionou de tal modo a Congregação para a Propagação da Fé, que, em 1629, o Papa Inocêncio XI decidiu consagrar, para Isfahan, um «Bispo da Babilónia», o missionário francês Louis Marie Pidou de Saint Olon. No final do século xvii, «intrépidos missionários» de rito latino — Agostinianos, Carmelitas Descalços, Jesuítas e Dominicanos — atraíram para a Igreja Ocidental milhares de membros da Igreja do Oriente.

A quase unânime lealdade a Roma sofreu, porém, um revés quando, devido a «guerras intermináveis entre Turcos e Persas, ao longo da fronteira comum, situada no coração do território cristão», a linha Sulaca de patriarcas foi obrigada a refugiar-se nas montanhas do Curdistão. Aqui, «motivados pelo isolamento e ressentidos com a atenção que os missionários católicos dedicavam aos seus antigos rivais, os caldeus originais retomaram a posição herética sobre a dualidade de Cristo». Mas outros não sucumbiram a essa tentação.

Hoje, de todas as igrejas sob autoridade papal, a maior permanece a Igreja Assírio-Caldeia, de rito caldeu/siríaco oriental, que celebra a sua liturgia em aramaico, a língua de Jesus, na Catedral de São José, em Teerão, e na Catedral de Santa Maria Mãe de Deus, em Urmia (Azerbaijão Ocidental). Mas também noutras paróquias em Ahvaz (província do Khuzestão, com uma rebelde maioria árabe, refúgio de assírios de todo o Médio Oriente) e em Salmas (Azerbaijão Ocidental, província com uma presença cristã contínua até aos massacres cometidos por emires curdos no século xix).

Leal a Roma é também a Igreja Católica Arménia (rito arménio), que tem a Catedral de São Gregório, o Iluminador, no bairro de Majidieh, em Teerão, e a Igreja de São Mesrob, na cidade de Ahvaz, cujo nome homenageia o monge e teólogo criador do alfabeto arménio. Quanto à Igreja Latina (rito romano/ocidental), é composta sobretudo por fiéis estrangeiros que rezam na Catedral da Consolata, na Catedral Católica Romana de Teerão e na Catedral de Nossa Senhora do Rosário, no bairro de Nova Julfa, em Isfahan.

Uma outra igreja católica, que também foi convento, a de Santo Abraão, no bairro de Jamalzadeh Shomali, na capital iraniana, era gerida desde 1966 por padres dominicanos irlandeses (chegaram em 1962, mas a maioria ou todos terão partido).

As comunidades católicas assíria e caldeia sobrevivem na República Islâmica do Irão, mas são muito menos influentes do que eram antes da revolução que derrubou 2000 anos de monarquia, quando as suas nove ordens religiosas administravam escolas frequentadas por uns 8000 alunos, «a maioria filhos das elites muçulmanas». Já os católicos de rito latino são sobretudo expatriados. Muitos deles — engenheiros, arquitectos, empresários, diplomatas — foram fundamentais para os planos de modernização do Xá Reza, primeiro imperador da dinastia Pahlavi.

Em 1980, Charles A. Frazee escrevia: «Independentemente do que o futuro reserve, a Igreja Assíria-Caldeia sobreviverá. Faz parte da vida iraniana há séculos e já enfrentou adversidades no passado. Com a mesma certeza, sobreviverá ao trauma revolucionário do presente.»

Margarida Santos Lopes