Venezuela: um futuro incerto

08/02/2026
Jairo García, jornalista

@Lusa

A operação militar ordenada por Donald Trump na Venezuela tirou Maduro do poder e levou-o para os Estados Unidos para ser julgado, mas manteve o regime chavista, que negocia a exploração do petróleo com os EUA. O futuro do país é imprevisível.

As imagens de Nicolás Maduro e a sua mulher, Cilia Torres, algemados e escoltados pelos agentes da DEA deram a volta ao mundo no dia 3 de Janeiro.  Tinham sido capturados e retirados da Venezuela numa operação ordenada por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América (EUA). O casal será julgado nos EUA por narcoterrorismo.

O ataque levou à queda do sucessor de Hugo Chávez, um ditador que governou o país por quase treze anos, e que, em 2024, perdeu a legitimidade popular depois de falsificar os resultados das eleições. As políticas adoptadas por Maduro, que provocaram uma grave crise económica, com altas taxas de inflação, salários baixos e dificuldades no acesso a alimentos, medicamentos e outros bens essenciais, além da corrupção, a instabilidade e a violência, ocasionaram uma onda migratória que afectou o continente americano – mais de 7,8 milhões de venezuelanos abandonaram o seu país nos últimos dez anos.



A operação militar, que levanta questões sobre a violação da soberania nacional e o respeito ao direito internacional, expressa «o regresso do imperialismo predador dos Estados Unidos», como refere o editorial do passado dia 4 de Janeiro do diário francês Le Monde. Efectivamente, na conferência de imprensa sobre o «assalto mais espectacular desde a Segunda Guerra Mundial», Trump não ocultou que visa o controlo das reservas do petróleo da Venezuela — as maiores a nível global, calculadas em 330 mil milhões de barris —, que serão exploradas e comercializadas pelas empresas norte-americanas.

Todavia, o ataque, que se fundamenta numa nova visão geopolítica global assente numa informal divisão do mundo pelas três grandes potências — EUA, China e Rússia — deixa claro que para a actual administração dos EUA o hemisfério ocidental é a região estratégica que querem voltar a controlar, legitimando essa prática com a chamada «doutrina Donroe» (uma aglutinação dos nomes Donald, por referência a Donald Trump, e de James Monroe, o presidente norte-americano que criou essa doutrina em 1823, estabelecendo que «a América é para os Americanos»).



Reacções

Os governos da Colômbia, Brasil, Chile, México e Uruguai divulgaram uma declaração conjunta, afirmando que a acção militar unilateral contra a Venezuela cria um «precedente extremamente perigoso» para a paz e a segurança regionais e defendendo a resolução pacífica da crise por meio do diálogo e de negociações. A Conferência Eclesial da Amazónia (CEAMA) e a Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM), também emitiram uma nota conjunta de solidariedade, expressando «proximidade fraterna» ao povo venezuelano perante acontecimentos que «agravam a violência» e violam os princípios democráticos. As organizações eclesiais alertam para os riscos de intervenções armadas externas, sublinhando que o uso de forças bélicas «põe em perigo a paz e abre a porta a um confronto de maiores proporções», num cenário regional já marcado por alta tensão.



Incerteza e esperança

A intervenção militar não levou à mudança do regime na Venezuela. Em Caracas, Delcy Rodriguez, a ex-número dois de Maduro, ocupa a cadeira na residência presidencial La Casona. Acérrima defensora do chavismo, fez um acordo com os EUA, concordando em enviar milhões de barris de crude para esse país para venda e abrir a indústria petrolífera ao investimento estrangeiro. Não se sabe se esta relação bilateral entre Washington e Caracas vai trazer benefícios aos Venezuelanos.

Ao lado da presidente interina permanecem as pessoas da coligação chavista, ainda que tenha feito uma pequena reestruturação ministerial e prometido libertar os presos políticos. No entanto, os militares e os grupos armados — incluindo a organização paramilitar chavista Los Colectivos — continuam a ter grande ascendente no país e as disputas pelo poder e recursos poderão ocasionar conflitos internos, contribuindo para um clima de insegurança e instabilidade.

Muitos sonham com uma transição política rápida, com a convocação de eleições democráticas. Corina Machado, voz da oposição, que ofereceu a medalha do Nobel da Paz a Trump na Casa Branca, referiu acreditar que será «eleita quando chegar a altura certa».

Ao olhar para o futuro, uma sondagem da consultora Afiches, realizada para o portal informativo Infobae, revelou que 31% dos venezuelanos que vivem no país e na diáspora (Colômbia, Chile, Argentina e Brasil), manifestaram incerteza, enquanto 30% dos entrevistados se mostraram esperançosos numa mudança positiva, 70% reclamam uma mudança de administração e 66% dos residentes no país acreditam que, daqui a um ano, o futuro será melhor.

O sonho de um futuro melhor para o país bolivariano, não obstante, só se concretizará com um processo soberano e democrático, protagonizado pelos Venezuelanos.