Dar à Igreja um rosto amazónico

05/12/2025
Jairo García, jornalista

O cardeal Pedro Barreto, jesuíta peruano, arcebispo emérito de Huancayo (2004-2024), conhecido pela sua defesa do meio ambiente, do povo da Amazónia e dos pobres, é o presidente da Conferência Eclesial da Amazónia (CEAMA). Nesta entrevista, fala-nos do caminho que está a realizar este organismo na missão evangelizadora, na configuração de uma Igreja sinodal e com rosto amazónico, na defesa dos povos originários e no cuidado da Casa Comum.

 

O cardeal Pedro Barreto nasceu em Lima, Peru, em 1944. Ingressou nos Jesuítas na capital peruana. Foi ordenado sacerdote em 1971. Em Novembro de 2001, foi eleito administrador apostólico de Jaén e, dois meses depois, recebeu a ordenação episcopal. Em Julho de 2004, foi nomeado arcebispo de Huancayo, nos Andes peruanos, arquidiocese onde permaneceu durante vinte anos, sempre comprometido na defesa da vida e do meio ambiente. Em 2018, o Papa Francisco nomeou-o cardeal. É uma das vozes mais escutadas da Igreja latino-americana, um profeta da ecologia integral. Foi presidente da Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM) e, actualmente, preside a Conferência Eclesial da Amazónia (CEAMA). Nesta entrevista à Além-Mar diz que sonha que a Igreja que peregrina na Amazónia seja inculturada e sinodal, atenta aos contextos sociais, ecológicos e culturais.



A Conferência Eclesial da Amazónia (CEAMA) foi constituída pelo Papa Francisco em 2020, como fruto do Sínodo da Amazónia. Qual é a novidade deste organismo eclesial?

A CEAMA é fruto do processo sinodal iniciado pelo Papa Francisco ao convocar, em Outubro de 2017, um Sínodo dos Bispos da Região Pan-Amazónica. Esta assembleia especial realizou-se em Roma dois anos depois, em Outubro de 2019, com o tema Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

A novidade deste organismo é a sua identidade eclesial, expressão da Igreja, Povo de Deus, cujos membros são todos os baptizados (bispos, sacerdotes, religiosos e leigos). Assim se cumpre, até ao fim dos tempos, o mandato de Jesus aos seus apóstolos: «Ide e fazei discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,16-20).

A Igreja, Povo de Deus, está hierarquicamente organizada, onde o princípio e fundamento da unidade dos bispos e dos fiéis na Igreja Católica é o pontífice romano e em cada jurisdição eclesiástica é o bispo. A autoridade na Igreja é como a de Jesus que escuta, discerne e anuncia o Reino de Deus. Ao reconhecer a hierarquia como autoridade na Igreja, reconhecemos também a necessária sinarquia, ou seja, a participação e coordenação entre os membros da Igreja. Portanto, a CEAMA, por ser uma Conferência Eclesial, inclui bispos, sacerdotes, religiosos e leigos na missão evangelizadora da Igreja na Amazónia.

 

Em que consiste este organismo que reúne todos os baptizados das 105 jurisdições eclesiásticas da região amazónica – um território que abarca mais de 7,5 milhões de km², centenas de povos indígenas e numerosas comunidades afro-descendentes, ribeirinhas e camponesas – e quais são os seus objectivos?

No Documento Final do Sínodo da Amazónia (Outubro de 2019), aprovado pelo Papa Francisco, propõe-se a criação de um organismo eclesial regional pós-sinodal para a região amazónica, que promova a sinodalidade entre as igrejas da região e que continue a tarefa de encontrar novos caminhos para a missão evangelizadora, consolidando assim a fisionomia da Igreja amazónica.

De acordo com os seus próprios estatutos, a CEAMA é uma organização da Igreja Católica erigida pela Santa Sé com personalidade jurídica pública, que assume os quatro sonhos do Papa Francisco, expressos na exortação apostólica Querida Amazónia.

São membros da CEAMA as 105 jurisdições eclesiásticas integradas nas sete Conferências Episcopais que têm território amazónico: Antilhas (Guiana, Suriname e Guiana Francesa), Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, que nomeiam os seus delegados: bispo, sacerdote, religioso/a e dois leigos, um dos quais proveniente dos povos originários.



Que balanço faz destes cinco anos de funcionamento da CEAMA?

Estamos numa fase de fortalecimento institucional neste caminho inédito de uma Conferência Eclesial da Amazónia. No entanto, a herança da missão evangelizadora de mais de 500 anos fortalece-nos na convicção de que Jesus ressuscitado cumpre a sua palavra de estar sempre connosco, até ao fim dos tempos.

Como escreveu o Papa Francisco na Evangelii Gaudium, somos herdeiros deste precioso legado evangélico na Amazónia, transmitindo «a mística de viver juntos, de nos misturarmos, de nos encontrarmos, de nos abraçarmos, de nos apoiarmos, de participarmos numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada».

Desde a criação da CEAMA, em 29 de Junho de 2020, pudemos realizar cinco assembleias (duas delas presenciais na cidade de Manaus – Brasil, em 2023 e 2024). Em Agosto de 2025, foi realizado um encontro de 90 bispos das 105 jurisdições da Amazónia. A recepção entusiástica dos bispos garante o fortalecimento da CEAMA como um organismo da Igreja Católica na Amazónia com uma articulação estreita e sólida com a REPAM.

 

Acabou de mencionar a Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM), da qual o senhor foi presidente. Qual é o objectivo da REPAM e qual é a sua relação com a CEAMA? Como articulam o vosso serviço com as outras organizações que trabalham na Amazónia?

A REPAM, como rede articuladora da missão evangelizadora na Amazónia, recolhe com gratidão séculos de evangelização e, nos seus onze anos de existência, conseguiu fortalecer a esperança, além da soma dos diversos serviços pastorais que a Igreja Católica realiza.

O Papa Francisco, em Janeiro de 2018, encarregou a REPAM da missão de preparar o Sínodo Especial para a Amazónia a fim de buscar novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Para isso, durante 2018 e 2019, organizou 45 assembleias no território amazónico e vários fóruns, com a participação de cerca de 85 mil pessoas, a maioria representantes das populações indígenas. O resultado foi muito fecundo e promissor. Percebeu-se que a semente plantada durante séculos deu frutos abundantes. A comunhão, a participação e o entusiasmo despertado são um sinal de esperança e de um compromisso cristão. Foi notável descobrir a liderança dos agentes pastorais, especialmente das mulheres, em toda a extensão da Amazónia.

Por isso, a CEAMA, como organismo da Igreja Católica, e a REPAM, como rede apostólica, articulam os seus esforços para dar à Igreja um rosto amazónico, em estreita colaboração com o Conselho Episcopal da América Latina e Caraíbas (CELAM), a Confederação Latino-Americana de Religiosos (CLAR) e o Secretariado da América Latina e Caraíbas da Cáritas (SELACC), em comunhão com o bispo de Roma, Leão XIV, e com os bispos das 105 jurisdições eclesiásticas da Amazónia.

Da mesma forma, como Igreja Católica, estamos abertos a trabalhar com outros organismos das diversas religiões e da sociedade civil que buscam o desenvolvimento humano integral das pessoas e o cuidado do bioma amazónico.

 

Qual é a realidade actual da Amazónia? Quais são os desafios para a evangelização desta região?

«A Querida Amazónia mostra-se ao mundo com todo o seu esplendor, seu drama, seu mistério». Com estas palavras, o Papa Francisco inicia a sua exortação apostólica pós-sinodal, manifestando a todo o Povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade o apreço e a importância que a Amazónia tem para a Igreja e para a Humanidade.

Hoje, é-nos exigida uma presença mais visível e eficaz na região para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres, como refere a Laudato Si’, e agir evangelicamente, com gestos corajosos, no cuidado das pessoas e do território amazónico.

Os principais desafios da Igreja na Amazónia estão expressos nos quatro sonhos do Papa Francisco na Querida Amazónia: o fiel cumprimento dos direitos humanos, o respeito das culturas ancestrais, o cuidado da Natureza e a criação de comunidades eclesiais inseridas na Amazónia.

 



Como ajudar a concretizar o caminho da sinodalidade e a inculturação na Amazónia?

O mistério da encarnação de Jesus Cristo, o Filho de Deus, é o fundamento para afirmar que a Igreja, continuadora da sua missão na História, é chamada a inculturar a fé nas pessoas, de todas as raças e culturas. Esta é a expressão mais genuína da Santíssima Trindade: a unidade de Deus na diversidade das Pessoas. Assim também na Humanidade e na Amazónia. Existem mais de 400 povos indígenas, cerca de 300 línguas originárias que têm em comum o cuidado das pessoas, do ambiente natural e a forma de perceber o mundo numa conexão profunda com a Natureza, onde tudo está interligado e nos convida a viver em harmonia.

 

Um dos aspectos que expressa uma Igreja com rosto amazónico é a elaboração de um rito próprio, que tenha em conta as realidades culturais, sociais e espirituais da região e, igualmente, as práticas de inculturação do Evangelho e de encarnação da Igreja no território. Que passos estão a ser dados nesse processo?

Graças à longa história de evangelização na Amazónia, a expressão litúrgica é um dos aspectos que mais nos motiva a uma reflexão e discernimento sérios.

O Sínodo da Amazónia encarregou-se de constituir uma comissão competente para estudar e dialogar, de acordo com os usos e costumes dos povos ancestrais, a elaboração de um rito amazónico, que se somaria, além do rito romano da Igreja Católica, aos 23 ritos diferentes, sinal claro de uma tradição que, desde os primeiros séculos, tem procurado inculturar os conteúdos da fé e sua celebração através de uma linguagem o mais coerente possível com o mistério a ser expresso.

Já temos um documento de trabalho a que chamamos Marco Geral do Rito Amazónico. Este é fruto da colaboração de uma centena de especialistas que conhecem a Amazónia. Devo indicar, além disso, que o rito Amazónico não é criado, mas nasce a partir das práticas de inculturação do Evangelho para expressar a fé da Igreja com rosto amazónico.

 

A Amazónia é o lar de comunidades indígenas e de um ecossistema que é constantemente ameaçado pela acção humana. A dimensão profética é essencial na missão evangelizadora da Igreja, chamada a anunciar da Boa Nova e a denunciar as situações de injustiça, de exploração e de tudo que ofende a dignidade dos filhos de Deus. Como se concretiza esse aspecto profético na região amazónica?

A profecia é, efectivamente, inerente à missão evangelizadora da Igreja. Assim o expressou o Papa Francisco no seu encontro com os bispos do Brasil em 2013 ao dizer que a Igreja não está na Amazónia como quem tem as malas feitas para partir depois de explorá-la. Está presente, desde o início, com missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos, e a sua presença é determinante para o futuro da região.

O processo sinodal que a Igreja Católica vive brota da acção do Espírito Santo que guiou e guia a Igreja. No nosso âmbito de acção pastoral, queremos encarnar o Evangelho na Amazónia a partir das jurisdições eclesiásticas, juntamente com os seus pastores, os bispos.

Neste bioma, a vida expressa a sua megadiversidade como um dom de Deus para todos. No entanto, é um território cada vez mais devastado, ferido e ameaçado. A mineração ilegal, a desflorestação, os grandes projectos extractivos, as monoculturas e as alterações climáticas põem em grave risco o ambiente natural, ameaçam a dignidade e a autodeterminação dos povos e, acima de tudo, afectam Cristo encarnado nas pessoas que compõem os povos originários, ribeirinhos, camponeses, afro-descendentes e populações urbanas.

Esta situação chama-nos a uma acção pastoral urgente de trabalhar em rede para uma maior eficácia apostólica na Amazónia, em comunhão com os bispos da região e unidos com o bispo de Roma, o Papa Leão XIV.



Qual é o seu sonho para a Amazónia?

O meu sonho para a Amazónia começou quando eu era adolescente. Eu estudava no Colégio da Imaculada, dos Jesuítas, em Lima. Pela primeira vez, pude observar a presença dos irmãos indígenas Awajúm Wampis do Nordeste do Peru, com os seus rostos pintados e as vestimentas típicas. O impacto foi muito intenso e definitivo na minha vida. Foi aí que começou o meu discernimento vocacional para a Companhia de Jesus, que culminou numa decisão: servir aqueles que vivem na Amazónia, os povos originários que Deus colocou no meu caminho quando eu era jovem.

Agora, com 64 anos de jesuíta, 54 de sacerdote, 24 de bispo e 7 de cardeal, continuo a sonhar – não sozinho, mas juntamente com a Igreja Católica, com os membros de outras religiões, com os empresários, com as pessoas de boa vontade –, em cuidar da vida das pessoas e do bioma amazónico.

O que é novo para mim foi descobrir a importância da Amazónia para a Humanidade e para todo o planeta, porque é um ecossistema vivo, megadiverso, que regula a variabilidade climática do mundo e armazena cerca de 130 biliões de toneladas métricas de dióxido de carbono, o que equivale a quase uma década de emissões globais. A bacia amazónica contém entre 17% e 20% da água doce do mundo e é uma das principais fontes de oxigénio do planeta.

Sem dúvida, a eleição do Papa Francisco em 13 de Março de 2013 foi um sinal de esperança para a Igreja e para a Humanidade. O cardeal Jorge Mario Bergoglio ouviu na assembleia da V Conferência Episcopal da América Latina e das Caraíbas, realizada em Maio de 2007, em Aparecida, Brasil, a grave situação que vivia a Amazónia: o maltrato das pessoas e a severa deterioração da floresta tropical. Em 2015, Francisco assinalou na encíclica Laudato Si’ que não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental. Porque o clamor da Terra está intimamente ligado ao clamor dos pobres. O gemido da Criação ressoa no lamento dos mais vulneráveis entre nós.

O meu sonho adolescente para a Amazónia superou as minhas expectativas pela acção fecunda e paciente do Espírito Santo nos cinco séculos de evangelização da Igreja na Amazónia, por meio da vida dedicada dos bispos, padres, religiosos e leigos. Posso dizer que o meu sonho agora é integral, porque inclui o social, o cultural, o ecológico e o eclesial, tal como indica o Papa Francisco na Querida Amazónia.
E, assim, queremos continuar a caminhar juntos na região amazónica, como Igreja sinodal de comunhão, participação e missão.