Num verão quente e seco em Portugal, os incêndios destruíram muita flora e fauna, mataram pessoas e deixaram milhões de euros em prejuízos. Agora, vai ser preciso reconstruir a vida das pessoas e dos ecossistemas, replantando flora e reintroduzindo fauna. Para a execução desta tarefa podemos ser chamados todos, e cada um pode contribuir conforme as suas possibilidades.
O clima equatorial quente e húmido da capital do Estado do Pará, a norte, nas margens da baía do Guaraná — com uma população de 7,6 milhões de pessoas e uma população indígena de 847 mil pessoas, das quais 485 mil vivem dentro de terras indígenas (IBGE, 20022) —, recebe a trigésima conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP30) entre 10 e 21 de Novembro de 2025.
Em Novembro, a COP30 marca os vinte anos da entrada em vigor do tratado ambiental Protocolo de Quioto e os dez anos da adopção do tratado sobre mudanças climáticas Acordo de Paris.
Ao longo de três décadas de conquistas e impasses multilaterais, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima tem sido um espelho da cooperação entre os povos para responder à crise climática, identificada pelas Nações Unidas, em 1988, como uma «preocupação comum para a Humanidade». Na conferência sobre meio ambiente e desenvolvimento Cúpula da Terra – Rio 92, os dirigentes mundiais assinaram a resposta multilateral à mudança do clima: mitigação, adaptação, financiamento, tecnologia e capacitação.
Agora, com a confirmação de que 2024 foi o ano mais quente já registado globalmente e o primeiro em que a temperatura média global ultrapassou 1,5 °C acima de níveis pré-industriais, a COP30 é a primeira conferência a ocorrer no epicentro da crise climática, na Amazónia, um dos ecossistemas mais vitais do planeta que corre o risco de ponto de inflexão irreversível.
Os principais temas em discussão no município brasileiro de Belém incluem a redução de emissões de gases de efeito estufa, a adaptação às mudanças climáticas e o financiamento climático para países em desenvolvimento, assim como as tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono, a preservação de florestas e biodiversidade e a justiça climática e os impactos sociais das mudanças climáticas.
Para o presidente brasileiro, a COP30 será diferente de todas as outras conferências das Nações Unidas sobre mudanças climáticas. «Vamos discutir a importância da Amazónia dentro da Amazónia, discutir a questão indígena, vendo os indígenas. Vamos discutir a questão dos povos ribeirinhos, vendo os povos ribeirinhos e como eles vivem», sentencia Lula da Silva, para depois esclarecer que se trata de «uma COP na Amazónia, não uma COP sobre a Amazónia», embora as florestas sejam um tópico central. Em consonância, a figura do Curupira, escolhida como mascote da conferência, e emblemática na cultura brasileira, conecta a ancestralidade indígena ao desafio climático. A personagem apresenta-se com os pés virados para trás, para despistar quem ameaça a Natureza e a comunidade que depende dela.
Mover o mundo
Ao aceitar a realidade e combater a catástrofe, o cinismo e o negacionismo, a COP30 promete ser o momento da esperança e das possibilidades por meio da acção, jamais da paralisia e da fragmentação. «A mudança é inevitável, seja por escolha ou por catástrofe. Se o aquecimento global não for controlado, a mudança nos será imposta, ao desestruturar nossas sociedades, economias e famílias. Se, em vez disso, optarmos por nos organizar em uma acção colectiva, teremos a possibilidade de reescrever um futuro diferente», alerta o diplomata brasileiro André Corrêa do Lago, presidente da COP30.
Quando a COP30 marca a metade da década crítica da Humanidade na luta contra a mudança do clima, o Conselho de Estabilidade Financeira, o órgão internacional que monitoriza e recomenda políticas para o sistema económico global, informa que «os choques climáticos podem ameaçar a estabilidade financeira do mundo». A escala e a gravidade da mudança do clima e os seus crescentes impactos torna o aquecimento global uma ameaça existencial à Humanidade, vive-se a urgência climática. Inevitavelmente, os eventos climáticos extremos — e os possíveis pontos de inflexão climática — afectarão cada vez mais todos os países, todas as comunidades e todos os indivíduos, sobretudo os mais vulneráveis.
Apesar do avanço no investimento em energias renováveis, muitos países continuam a apostar nos combustíveis fósseis como fonte energética principal e, desta forma, a prejudicar as suas economias, já que o recurso demonstra vantagem competitiva em custo, acesso e empregabilidade, revela o relatório Renewable Power Generation Costs in 2024, apresentado pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).
Actualmente, a energia solar é 41% mais barata que fontes não renováveis, enquanto a energia eólica offshore é 53% mais barata. Além disso, o relatório aponta que mais de 90% das fontes renováveis no mundo produziram electricidade com custo inferior à alternativa fóssil mais barata em 2024. «Isso não é só uma mudança de fonte de energia, é uma mudança de possibilidades, de nos reconciliarmos com o clima», observa o secretário-geral das Nações Unidas.
«Os países que se agarram aos combustíveis fósseis não estão a proteger as suas economias, estão a sabotá-las, aumentando os custos, enfraquecendo a competitividade, ficando presos a activos encalhados e perdendo a maior oportunidade económica do século xxi», enfatiza António Guterres. As energias renováveis são a base da segurança e da soberania energéticas dos Estados. Os combustíveis fósseis deixam as economias e as populações à mercê de choques de preços, de interrupções de fornecimento e da turbulência geopolítica, adverte o secretário-geral das Nações Unidas.
Luta climática
As organizações católicas Pax Christi Internacional, Caritas Internationalis e CIDSE empenham-se em denunciar a falta de acção climática, apontando à COP30. «As alterações climáticas já estão a exacerbar conflitos em todo o mundo e esta é uma tendência perigosa que se espera que se intensifique à medida que as temperaturas globais continuam a subir», alertam. A frequência e gravidade crescentes de eventos extremos, juntamente com a mudança na disponibilidade de recursos e a transformação de terras em áreas inabitáveis, levarão ao deslocamento forçado em massa de pessoas, «A acção climática é urgente, não só para proteger o ambiente, mas também para prevenir futuras guerras e garantir justiça para as comunidades mais pobres e marginalizadas», avisa Alistair Dutton, secretário-geral da Caritas Internationalis. «A indústria da guerra e a indústria dos combustíveis fósseis estão intrinsecamente ligadas. Ambas se alimentam da desigualdade e dos interesses, em vez do bem comum a longo prazo», sustenta por sua vez Martha Romero, secretária-geral da Pax Christi International. Temos de acreditar num mundo melhor, começar a criá-lo agora e exigir que os líderes o tornem possível, antes que seja demasiado tarde.
O Papa Leão XIV não participará na COP30 devido às celebrações progamadas para o ano jubilar. No entanto, o Vaticano enviará uma delegação chefiada pelo cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano. A comitiva incluirá membros dos dicastérios do Desenvolvimento Humano Integral e da Comunicação. Participarão também os bispos da arquidiocese de Belém, da presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, além de delegados da América Latina, Ásia e África.
A escolha de Belém para a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, pela sua localização na Amazónia, gera grande expectativa no Vaticano, como uma forma de dar continuidade ao cuidado da Casa Comum, um apelo à responsabilidade ética e ecológica da encíclica Laudato Si’ (2015), que exige uma conversão ecológica integral para uma vida mais sustentável e justa, promovendo a dignidade humana e a justiça social e ambiental e a protecção da biodiversidade.
Cabe aos dirigentes mundiais reunidos em Belém do Pará, topónimo dado à área indígena ameríndia Mairi, em homenagem à cidade bíblica, evitar o «inferno climático», tal como o secretário-geral das Nações Unidas descreve a gravidade da crise climática.

