Uma vida contra a mutilação feminina

Uma vida contra a mutilação feminina

14/09/2020
Redação

Duas meninas gémeas submetidas à prática de mutilação genital feminina (MGF) foram levadas de urgência, em estado crítico, para a clínica local na Guiné-Conacri, onde o Dr. Morissanda Kouyaté trabalhava. Ele fez tudo o que podia para as salvar, mas as meninas sangraram até morrer.

As consequências fatais da MGF – o processo de alterar ou ferir intencionalmente os órgãos genitais femininos por razões não médicas, praticado em várias culturas e tradições nos cinco continentes – levaram o Dr. Kouyaté a reagir. Em 1984, convocou uma reunião urgente envolvendo 16 países africanos em Dacar, capital do Senegal. Nela, criou o Comité Inter-Africano sobre Práticas Tradicionais que Afetam a Saúde das Mulheres e Crianças (IAC), de que atualmente é diretor executivo. Esta organização não-governamental (ONG) visa alterar os valores sociais e aumentar a consciência para eliminar a mutilação genital feminina (MGF) e outras práticas tradicionais que afetam a saúde de mulheres e crianças na África e no mundo inteiro. O IAC Trabalha em parceria com a UNICEF, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

O Dr. Kouyaté descobriu que mostrar fotos e filmes dos procedimentos da mutilação genital feminina costuma ser suficiente para que os tomadores de decisão levem a questão a sério e é a melhor estratégia para caminhar para o fim da prática desta tradição.

Ele recorda a reação de um líder religioso à projeção de um filme: «Chorou e disse: “Nunca pensei que fosse assim. Vou chamar as pessoas para pararem agora.”»

Mas uma das razões pelas quais a MGF é difícil de ser interrompida é as pessoas que realizam o procedimento acharem que estão a fazer uma coisa boa para as suas filhas e netas, explica o médico.

O Dr. Kouyaté recebeu o Prémio Nelson Mandela 2020 das Nações Unidas em julho passado, pelo seu compromisso em acabar com a MGF. E mostra-se esperançoso: na África, 26 dos 29 países onde a MGF é mais comum agora têm leis em contra.

A Unicef estima que 200 milhões de meninas e mulheres foram submetidas à MGF em 31 países onde a prática é mais prevalente.

O Dr. Kouyaté aconselha os países a implementar restrições que deixem claro aos imigrantes que a MGF é proibida. Reconhecer a MGF como uma questão de direitos humanos que viola a integridade das mulheres em todo o mundo também é crucial para impedi-la.

«A luta contra a mutilação genital feminina não é apenas uma luta africana», diz Kouyaté. «Isso da humanidade mundial. Temos de lutar juntos para estarmos juntos.»

 

Fonte: https://www.globalcitizen.org/