Quando apenas metade da população do continente tem acesso a serviços de saneamento geridos de forma segura, a União Africana pretende dar um novo impulso à disponibilidade sustentável de água e gestão de resíduos.
O objectivo é que as infra-estruturas de saneamento garantam economias e comunidades ambientalmente sustentáveis e resilientes às alterações climáticas.
Num momento em que o mundo entrou na era da «bancarrota hídrica global», com 70% dos grandes aquíferos em declínio e danos praticamente «irreversíveis» (relatório da Universidade das Nações Unidas, 20 Janeiro de 2026), a visão política da União Africana procura que o continente seja seguro e resiliente à água, posicionando a água potável como o activo mais estratégico para impulsionar a transformação social e o crescimento económico do plano estratégico Agenda 2063. O compromisso é acelerar a concretização de projectos comerciais, financeiros e orçamentais para garantir a sustentabilidade e um programa para assegurar as águas subterrâneas ocultas de África. Na cimeira African Union-AIP Water Investment Summit 2025, realizada na África do Sul, o Continental Africa Water Investment Programme admitiu que «os investimentos no sector de água da África estão bem abaixo dos requisitos do continente». Por sua vez, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) conclui que, em 2022, apenas 39% da população da África utilizava água potável gerida de forma segura. Cerca de 411 milhões de pessoas ainda não tinham acesso a serviços básicos de água potável.
Para 2026, ano temático da União Africana dedicado à garantia de disponibilidade sustentável de água e sistemas de saneamento seguros, está planeada a Conferência Internacional sobre o Financiamento da Visão e Política Africana da Água para 2063 (ICFAWVP63) com objectivo de mobilizar investimentos significativos para colmatar a lacuna de financiamento anual de 30 mil milhões de dólares para segurança hídrica sustentável e projectos de saneamento no continente. Neste mesmo ano, o Senegal é o país co-organizador da Conferência das Nações Unidas sobre Água (UNWC), em Dezembro, nos Emirados Árabes Unidos.
O país da África Ocidental pretende garantir que as prioridades do continente moldem a agenda global da água. «É um compromisso solene da África com as gerações futuras, para salvaguardar a água como o batimento cardíaco da prosperidade, paz e dignidade, e colocá-la no centro da transformação da África», regista o senegalês Cheikh Dièye, presidente do Conselho de Ministros Africanos sobre Água (AMCOW), referindo-se à passagem das respostas fragmentadas à acção colectiva proporcionada pelo documento Visão e Política Africana para Água 2063 (AWVP63), visto como uma bússola continental.
O acesso inadequado aos serviços de água, saneamento e higiene não são neutros em termos de género já que afecta desproporcionalmente as mulheres, as raparigas, assim como pessoas com deficiência, idosos e os que vivem em bairros informais ou rurais. «O acesso é essencial para realizar o direito à saúde e uma condição prévia necessária para o direito à educação de mulheres e meninas», resume Jamesina King, comissária da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (ACHPR).
Água abaixo
Desde 2004, o Mecanismo Africano da Água (AWF), criado pelo Conselho de Ministros Africanos sobre Água (AMCOW) e gerido pelo Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), promove a segurança hídrica em todo o continente africano, abordando o abastecimento de água potável, o saneamento e a higiene, além da gestão das águas agrícolas e transfronteiriças, a monitorização e a avaliação, a capacitação, a gestão do conhecimento e a governação, priorizando projectos que aumentem a resiliência climática.
Em duas décadas, o programa AWF financiou cerca de 150 projectos em 52 países, mobilizando o equivalente a quatro mil milhões de euros em investimentos e agora, com a Estratégia 2026-2030, propõe-se reforçar a segurança hídrica e o acesso universal a saneamento seguro em toda a África.
Apesar da abundância de recursos hídricos, muitas regiões do continente sofrem de escassez de água. África cobre 22% da massa terrestre mundial, mas a sua participação nos recursos hídricos renováveis é de apenas 9%, segundo dados da agência UN-Water. A distribuição é de forma desigual, com os seis países mais ricos em água a deterem 54% dos recursos totais e os 27 países mais pobres em água a terem apenas 7%. Isto, aliado ao facto de dois terços de África serem áridos ou semiáridos, torna o continente particularmente vulnerável à escassez de água.
O continente possui 63 bacias hidrográficas internacionais que fornecem 90% de todos os recursos hídricos superficiais. As águas subterrâneas, acedidas através de aquíferos, poços e furos artesianos, fornecem mais de 75% da água potável do continente, revela o estudo Mapping the Potential of Managed Aquifer Recharge in Africa (2024 GSD). Desta forma, só uma gestão colaborativa transfronteiriça da água poderá sustentar a agricultura, a produção de energia, o saneamento e o crescimento económico.
A ameaça advém de a qualidade das águas superficiais e subterrâneas «estar cada vez mais ameaçada pela gestão inadequada do saneamento, do escoamento urbano e agrícola e dos efluentes de mineração e industriais, bem como pelo lançamento de contaminantes naturais como o flúor e os metais pesados», revela o documento African Water Facility Strategy 2026-2030, do Banco Africano de Investimento.
Agitar as águas
À medida que a procura de água aumenta devido ao crescimento populacional e às actividades económicas da agricultura e indústria, haverá uma pressão ainda maior sobre os recursos de água doce. Por conseguinte, «a gestão dos recursos hídricos, incluindo as bacias transfronteiriças e os aquíferos, são elementos fundamentais para a integração e cooperação regional sustentáveis», alerta o Banco Africano de Investimento. A agricultura é o principal consumidor de água no continente africano, utilizando 85% dos recursos de água doce, seguida pelo abastecimento doméstico (9%) e pela indústria (6%), revelam dados da agência UN-Water.
O abastecimento de água urbano e rural em todo o continente está também ameaçado pelas alterações climáticas. Períodos prolongados de seca no Nordeste e região austral reduzem os níveis de água superficial e subterrânea, resultando numa diminuição do abastecimento de água para fins domésticos, agrícolas e industriais.
Por outro lado, chuvas intensas na região ocidental provocam um escoamento rápido, sobrecarregam os sistemas de drenagem e contaminam fontes de água com poluentes, esgotos e sedimentos. As inundações danificam infra-estruturas e levam à perda de acesso à água potável e a surtos de doenças.
O relatório State of the Climate in Africa 2024, promovido pela Organização Meteorológica Mundial, indica que «50 milhões de pessoas em África serão empurradas para a crise hídrica devido às alterações climáticas, com grave escassez de água nas habitações e indústrias», incluindo impactos na segurança energética.
Apesar da duplicação da ajuda financeira ao sector da água nos últimos quinze anos, ainda persiste uma lacuna financeira significativa, uma vez que África não atrai investimento suficiente devido aos riscos económicos e condições financeiras desafiantes. As fontes governamentais tradicionais de financiamento
– tarifas, impostos e transferências – não são utilizadas eficazmente, contribuindo para o subfinanciamento contínuo do sector da água e mesmo os orçamentos atribuídos não são totalmente gastos.
África enfrenta o desafio da insuficiência de investimentos em projectos viáveis e de mecanismos de financiamento inadequados. O sucesso da concretização de uma visão estratégica da água no continente exige compromisso, mobilização e um impulso na competência operacional para que o progresso seja líquido.
Água limpa muda a vida
Com a acção da Unicef, os sistemas de água que abastecem habitações em zonas rurais do Sudão mudam vidas. É o caso da área rural de Alsabaat, no Estado de Kassala, em que um sistema reabilitado pela Unicef leva água às habitações, acabando com um passado em que os jovens, em vez de irem à escola, tinham de ir buscar água a um canal proveniente da barragem de Khasmelgirba, que contém água colorida pela poluição, misturada com algas, e imprópria para consumo. Shaimaa, de 12 anos, conta como «chegava atrasada à escola e era castigada. Em casa, não tínhamos água para lavar a roupa, lavar a loiça e a casa estava suja».
Durante mais de duas décadas esta foi a vida de Fatima, a sua mãe, e de mais de sete mil pessoas na aldeia, dependentes do canal próximo, que era a única fonte de água e pouco saudável. Agora, uma nova estação de tratamento de água instalada pela Unicef, alimentada a energia solar, produz 15 metros cúbicos por hora, durante 10 horas por dia. O ponto de água fica mesmo atrás da casa de Fatima, algo que a deixa muito feliz. «Nunca tínhamos bebido água directamente da torneira. Água limpa significa saúde e bem-estar», diz. Na cozinha da sua família, os grandes recipientes estão cheios de água, suficiente para beber e cozinhar. E é água potável. «A vida ficou melhor. Antes não podíamos brincar», confirma Shaimaa.

