A sua natureza fez dela um destino turístico muito procurado. Mas a ilha de Jeju é muito mais do que isso. É a têmpera das suas haenyeo, as pescadoras mergulhadoras. A sua epopeia é símbolo de redenção perante a trágica história das comfort women (mulheres de conforto) e serve de exemplo para as mulheres coreanas de hoje, cuja condição continua a ser de inferioridade.
@Lusa
Seogwipo, ilha de Jeju. A ampla montra dá para o passeio marítimo. É, sem dúvida, uma bela vista, mas, no interior do restaurante, há muitas distracções. Na cabeceira da mesa há um pequeno ecrã táctil — já visto noutros estabelecimentos — onde passa o menu: imagem, descrição e preço dos pratos disponíveis. O cliente faz a sua escolha através do monitor, e a encomenda segue directamente para a cozinha. Ao centro de cada mesa — o restaurante é especializado em carne grelhada, em particular a de porco preto — encontra-se uma grelha a carvão (encimada por um tubo de aspiração), sobre a qual o próprio cliente cozinha a sua carne.
Não é tudo. No restaurante movem-se robôs de mesa que transportam os pratos da cozinha para as mesas e, ao depararem-se com um obstáculo, mudam imediatamente de direcção. Há empregados de mesa humanos (que, aliás, têm de correr de uma mesa para outra), mas contam com a ajuda dos que foram montados em fábrica. Em suma, estamos num estabelecimento que ostenta uma grande eficiência tecnológica, mas que talvez emane menos romantismo e menos ambiente do que um restaurante tradicional.
Podemos ver este restaurante como um pequeno exemplo de uma das duas faces da Coreia: a que avança a grandes passadas rumo ao futuro. Tal como acontece, ainda que com mais objecções por parte da população (ainda que formuladas com «calma confuciana», uma das dez lições do filósofo chinês), com as dezenas de enormes turbinas eólicas erguidas ao longo de quilómetros (tanto em terra como no mar) na costa, não muito longe daqui.
Histórias de mulheres coreanas
Não é o futuro, mas sim uma tradição ancestral da ilha de Jeju, a figura das haenyeo, as «mulheres do mar». Sustendo a respiração durante até dois minutos (em apneia, portanto), estas mulheres mergulham nas águas do oceano até dez metros de profundidade para recolher do fundo marinho polvos, abalones, crustáceos, ouriços e também algas. Saem para o mar em grupo (também para reduzir os riscos, que — apesar do meticuloso treino e, talvez, até da genética destas mulheres — estão sempre presentes) e, depois, dividem equitativamente o pescado, independentemente da apanha de cada uma.
As haenyeo respeitam os ritmos do mar e da Natureza, razão por que a sua pesca é considerada sustentável (ao contrário de muitas outras). A tradição das mergulhadoras de Jeju inclui também alguns rituais xamânicos em honra de Yeongdeung Halmang, a deusa do mar.
A sua história é de tal modo extraordinária, que, em 2016, a Unesco as declarou património imaterial da humanidade. Ainda existem haenyeo, embora em número muito reduzido em relação às quinze a vinte mil do passado. Em 2024, o governo provincial de Jeju contou 2839, mas noventa por cento delas tinham sessenta ou mais anos. Infelizmente, não temos oportunidade de as ver em acção e, por isso, temos de nos contentar com uma visita ao museu que lhes é dedicado. Além de fotografias e filmagens de época, e de reconstituições das habitações das famílias, estão expostos os instrumentos utilizados nos mergulhos, de facto muito simples: máscaras de mergulho, cintos com pesos de chumbo para descer mais rapidamente, flutuadores com uma rede presa para recolher o pescado.
As mergulhadoras de Jeju ocupam um lugar na história coreana não apenas pela sua epopeia e extraordinárias capacidades de mergulho, mas também pelo que representaram para as mulheres coreanas. Muitos chegaram mesmo a falar, a seu respeito, de uma sociedade matriarcal.
Num painel do museu que lhes é dedicado, lê-se: «A vida das mulheres de Jeju é muito diferente da das mulheres noutras regiões da Coreia. Na Coreia continental, as mulheres eram tradicionalmente responsáveis pelas tarefas domésticas, enquanto os homens ganhavam o sustento, em resultado da diferenciação dos papéis de género. Pelo contrário, as mulheres de Jeju dedicavam-se a actividades económicas, como a agricultura e o mergulho para apanhar moluscos, além das lides domésticas.»
Se a história das haenyeo é feita de determinação e coragem, há outra em que as mulheres coreanas (e de outros países asiáticos) foram humilhadas sem que os responsáveis alguma vez apresentassem um pedido oficial de desculpas. Referimo-nos às military comfort women («mulheres de conforto para os militares»), tradução inglesa do termo japonês jūgun-ianfu. Durante a longa dominação japonesa sobre a Coreia (de 1910 a 1945), o Japão criou uma rede de bordéis em que mulheres eram forçadas a prostituir-se para «conforto» dos militares. Ora, desde 1992, todas as quartas-feiras, pessoas de origens sociais diversas reúnem-se na Coreia do Sul para uma manifestação de memória em frente à embaixada japonesa em Seul.
«É um protesto», explica-nos Byun Jae-woon, jornalista, «que visa obter do Governo japonês um pedido oficial de desculpas e uma indemnização para as mulheres que foram reduzidas a escravidão sexual pelo exército nipónico e sofreram exploração física e psicológica. No entanto, a atitude do Japão nunca mudou. Entretanto, as vítimas continuaram a morrer e, tanto quanto sei, hoje restam poucas.»
Este protesto tem contornos que fazem lembrar os das mães da Plaza de Mayo, em Buenos Aires, na Argentina. Desde 1977, as mães reúnem-se todas as quintas-feiras às 15h30 na Plaza de Mayo, na capital argentina, diante da Casa Rosada, para marchar em círculo, numa manifestação pacífica e altamente simbólica, com a qual reclamam justiça pelos seus filhos e filhas desaparecidos durante a última ditadura argentina.
A resistência da sociedade patriarcal
Além dos extremos representados pelas haenyeo e pelas mulheres de comforto, o êxito económico mundial da Coreia do Sul não teve, até hoje, correspondência num êxito equivalente das mulheres coreanas, ainda limitadas por uma sociedade de estruturas patriarcais. Os números dos relatórios internacionais parecem confirmar essa realidade. Segundo o «Índice do tecto de vidro» («Glass Ceiling Index 2025», The Economist), sobre a condição laboral das mulheres, a Coreia do Sul ocupa o 28.º lugar entre os 29 países pertencentes à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Por sua vez, o «Índice da disparidade de género» («Global Gender Gap Index 2024», Fórum Económico Mundial) coloca o país asiático na 94.ª posição entre 146.
Kim Sang-hyuk, antigo professor da Universidade Nacional dos Transportes, afirma-nos: «A Coreia é fortemente influenciada pelo Confucionismo e creio que a discriminação de género teve aí a sua origem. Se nos libertarmos do Confucionismo, a discriminação de género diminuirá.»
«É sempre necessário fazer referência ao Confucionismo dominante», confirma-nos o padre Diego Cazzolato, missionário na Coreia, «onde a mulher tem um papel “estruturalmente” inferior ao do homem. Além disso, diria que um movimento feminista digno desse nome nunca chegou a desenvolver-se na Coreia. Por isso, as mulheres parecem contentar-se em ser o mais “bonitas” possível e em ter um papel bem definido no seio da família. No entanto, devo acrescentar que hoje as jovens esposas conseguem alcançar uma certa paridade em casa, na medida em que os homens também passam a estar igualmente envolvidos nas tarefas domésticas e no cuidado dos filhos. Não é uma mudança insignificante.»
Na verdade, a afirmação das mulheres coreanas já começou. E não nos referimos apenas ao movimento feminista das «4B» (em que bi
— «não», em coreano — é a inicial dos quatro princípios do movimento: bi-hon (não casar), bi-chulsan (não ter filhos), bi-yeonae (não ter relações amorosas) e bi-seong (não ter relações sexuais), mas também, e sobretudo, a Han Kang, a escritora sul-coreana que, em 2024, foi distinguida com o Prémio Nobel da Literatura, pela primeira vez atribuído a uma mulher asiática.
Aliás, Han Kang dedicou um dos seus romances, Despedidas Impossíveis (2025), precisamente a Jeju, e são duas mulheres (Gyeong-ha e In-seon) que fazem reviver uma revolta ocorrida na ilha entre 1948 e 1949, brutalmente reprimida pelas autoridades da época. «Pela sua prosa poética e intensa», lê-se na justificação do Nobel, «que aborda traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana.»

