A primeira parte do mandato de Javier Milei deu em nada no propósito de mudar radicalmente a Argentina. A segunda, apadrinhada pelos Estados Unidos, começa no dia 10, mas sem mais garantias.
A inesperada vitória do partido no poder na Argentina nas eleições de Outubro saldou-se num alento ao presidente, Javier Milei, 55 anos, que dentro de dez dias inicia a segunda metade do seu mandato – para o que der e vier.
Contra tudo o que previam políticos e analistas, a votação para as duas câmaras do Congresso deu uma surpreendente vitória ao partido do poder, La Libertad Avanza (LLA), espantando o próprio líder ultraliberal por não ter previsto uma vitória no maior círculo eleitoral do país: «Cabia na cabeça de alguém que pudéssemos ganhar a província de Buenos Aires?»
Espanto
Não, não cabia. Numa eleição para a legislatura regional da capital há três meses a Força Pátria, peronista, vencera com 14 pontos de vantagem devido ao fracasso das novas e ousadas políticas. Mas cinquenta dias depois a LLA ganhava-lhe por 41 por cento contra 36 na corrida para a renovação de um terço do Senado e de metade da Câmara de Deputados.
«Hoje, o povo decidiu deixar para trás cem anos de decadência, hoje começa a construção da grande Argentina», exclamou, exultante, Milei, afirmando que agora é que tudo vai mudar mesmo.
Na Argentina nada é a preto-e-branco, principalmente depois de uma década e meia de crises que acabaram com a eleição, há dois anos, para o topo do Estado, do líder de extrema-direita, apostado em levar tudo à frente para chegar onde quer.
Milei encontrou de facto um país cheio de problemas quando assumiu o poder, em 2023. Até então fora um mero comentador de televisão, de modos furiosos e vulgares, que acabou por atrair um eleitorado zangado com os políticos tradicionais. A pobreza, com duas entre cinco pessoas viver com quase nada, a deterioração dos salários, a hiperinflação, que somava então 211,4 por cento em Dezembro, as crises permanentes, a corrupção, a própria incapacidade de autocrítica por parte dos peronistas, mandaram o eleitorado para o regaço do líder anti-sistema.
Ganhos e perdas
Uma vez na Casa Rosada, diga-se, nem tudo correu mal a Javier Milei. A inflação, que ia 25,5 por cento ao mês, passou para menos de 2 por cento, e o país teve, em 2024, o primeiro superavit, em mais de uma década. Mas perderam-se 183 447 mil postos de trabalho, incluindo mais de 55 mil na função pública, números oficiais, resultado da política de “motosserra” que reduziu brutalmente o tamanho do Estado, a economia patinou e a pobreza continuou a ser uma triste realidade, com uma porção significativa de pessoas (53 por cento) a queixarem-se que o que ganham não chega até ao fim do mês segundo a consultora Escenarios.
O lançamento duvidoso, por Milei, de uma criptomoeda, e o caso de um deputado governamentalista de Buenos Aires afastado por suspeita de ligações ao narcotráfico ajudaram à quebra de confiança e à ideia de que a experiência estava a acabar.
Mas não estava: a LLA saiu vitoriosa das eleições de Outubro para a renovação das duas câmaras, entre outras coisas por os peronistas terem entrado com candidatos demasiado comprometidos, um erro, e não terem reaparecido com propostas novas, e a circunstância de o eleitorado jovem ter permanecido desconfiado dos políticos antigos – o mesmo eleitorado que votou há dois anos contra a velha Argentina.
A confirmação, em Junho, da condenação da líder peronista e antiga presidente, Cristina Kirchner, por corrupção, pesou certamente também na decisão dos Argentinos.
A mãozinha de Trump
Finalmente, o apoio do presidente norte-americano, Donald Trump, teve o seu papel. O Governo conseguira baixar a inflação, é verdade, valorizando fortemente o peso, mas isso, mais o esfriamento da actividade económica, fizeram o banco central perder reservas e puseram o país à beira de um colapso financeiro. Foi aí que entrou Trump, pondo à disposição de Buenos Aires 20 mil milhões de dólares (uns 17 mil milhões de euros) para segurar a moeda nacional. Mais: os Estados Unidos terão ajudado a Argentina a liquidar uma dívida ao Fundo Monetário Internacional do equivalente a 725 milhões de dólares (uns 624 milhões de euros), noticiou o diário britânico Financial Times.
A ir para a frente, a revolução Milei viraria de facto o país do avesso; faria os salários depender da produtividade, flexibilizaria os horários, poria as empresas a negociar directamente com os trabalhadores, debilitaria os sindicatos, aumentaria a idade de reforma, eliminaria as pensões de viuvez, privatizaria a segurança social. Para resumir.
Mas a vitória de Outubro pode não chegar para tudo isso. Milei ganhou mais 74 deputados e 16 senadores, mas continua a não ter em nenhuma das câmaras a maioria que precisa, a menos que consiga oportunas alianças, que não se adivinham fáceis.

